Comércio ilegal de canetas emagrecedoras cresce impulsionado pela desinformação, e aumenta riscos à saúde

Por Dentro De Tudo:

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Ao longo das últimas quatro décadas, a obesidade consolidou-se como uma epidemia em escala global. Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que a prevalência quase triplicou, atingindo todas as regiões. Em estudo recente, a OMS estima que a obesidade esteve associada a cerca de 3,7 milhões de mortes em 2024 e que o número de pessoas vivendo com a condição pode dobrar até 2030. Diante desse cenário, avançaram os tratamentos farmacológicos com o desenvolvimento de novos medicamentos. No Brasil, a Anvisa aprovou, em janeiro de 2023, o Wegovy®, à base de semaglutida, para o tratamento de sobrepeso e obesidade em adultos com comorbidades. A mesma substância está presente em Ozempic® e Rybelsus®, inicialmente aprovados para diabetes tipo 2, mas que ganharam popularidade pela perda de peso. Já o Mounjaro® (tirzepatida) foi registrado pela Anvisa em 2023 para o tratamento do diabetes, e, em junho de 2025, a agência ampliou a indicação para obesidade e sobrepeso com comorbidade.

Quando prescritos e adquiridos em farmácias regulamentadas, esses medicamentos integram tratamentos reconhecidos pela medicina. Contudo, fora desse contexto, vendidos sem receita ou pela internet, passam a representar riscos à saúde. A demanda global extrapola as indicações terapêuticas aprovadas, impulsionando o uso sem prescrição e sem acompanhamento profissional, especialmente com finalidades estéticas.

Esses produtos têm sido amplamente divulgados e comercializados pela internet, em redes sociais, por clínicas de estética, farmácias de manipulação e centros de bem-estar, o que acende alertas entre autoridades sanitárias, especialistas e laboratórios fabricantes. O uso irregular e a circulação de produtos falsificados ou de baixa qualidade ocorrem em cadeias de suprimento não regulamentadas. No Brasil, 77% da população utiliza medicamentos sem prescrição, segundo o Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF/SP). A presença digital do país é intensa: a Comscore aponta que o Brasil ocupa a terceira posição global no consumo de redes sociais e é o segundo país com maior volume de buscas por Ozempic e Mounjaro.

Nesse quadro, uma pesquisa sobre Automedicação e acesso irregular às canetas emagrecedoras identificou um aumento de 35% no consumo dessas substâncias, sobretudo entre mulheres jovens, impulsionado pela ampla oferta em farmácias e plataformas online. Ainda sobre a qualidade dos produtos vendidos ilegalmente, um estudo avaliou semaglutida vendida por lojas online irregulares e revelou dificuldades de entrega, com apenas três frascos injetáveis entregues entre os pedidos, e canetas anunciadas que não chegaram aos consumidores. Os itens recebidos foram classificados como falsificados ou de baixa qualidade, com falhas em 59% a 63% dos critérios analisados. Em alguns frascos, havia até 38% mais medicamento do que o indicado no rótulo, e houve a presença de endotoxinas em todas as amostras, substâncias tóxicas capazes de provocar reações adversas. A pureza do princípio ativo também ficou significativamente aquém do informado, variando entre 7,7% e 14,37%, bem abaixo dos 99% declarados.

A vulnerabilidade dos consumidores é motivo de preocupação. Uma parceria entre o Conselho Federal de Farmácia (CFF) e o Datafolha revelou que a segurança regulatória tem peso mínimo na hora da compra de produtos para emagrecimento pela internet: menos de 5% dos compradores consideram o registro na Anvisa, enquanto a promessa de resultados rápidos atrai 54% dos interessados. A influência de comentários de outros usuários pesa 24%, e a verificação da regularidade do fabricante é ignorada por 48% e a do produto por 51%. Ainda assim, cerca de 70% não conferem a existência de número de registro na embalagem.

Casos de apreensão de canetas emagrecedoras falsificadas, contrabandeadas ou vendidas irregularmente vêm se repetindo. Em Goiás, a Polícia Civil desarticulou, em outubro do ano passado, um esquema envolvendo Mounjaro, com a apreensão de medicamentos sem registro na Anvisa. Em Minas Gerais, a Polícia Militar Rodoviária Estadual apreendeu 236 ampolas, avaliadas em cerca de R$ 300 mil, que teriam sido adquiridas no Paraguai e declaravam conter tirzepatida.

A pesquisa sobre automedicação com semaglutida indicou que, embora originalmente indicada para diabetes tipo 2 e obesidade clínica, seu uso expandiu-se de forma indiscriminada para fins estéticos, sem supervisão médica, resultando em problemas de saúde que vão desde sintomas gastrointestinais até complicações graves, como retinopatia e aumento do risco de câncer. A fabricante Eli Lilly esclareceu que produtos do Paraguai que alegam conter tirzepatida — como Lipoless, TG e Tirzec — não são equivalentes ao Mounjaro®. Reforçou ainda que já foram identificadas reações adversas graves e a presença de substâncias ilegais em medicamentos injetáveis manipulados para emagrecimento, com potencial de provocar infecções e complicações fatais. A Novo Nordisk, proprietária de Wegovy, Rybelsus e Ozempic, reiterou ser a única detentora dos registros concedidos pela Anvisa para a comercialização de semaglutida no Brasil, sem autorização para repasse a farmácias de manipulação ou outros fabricantes.

A Anvisa também comentou o tema por meio da Nota Técnica nº 200/2025, que orienta sobre a importação e manipulação de insumos farmacêuticos ativos, incluindo semaglutida e tirzepatida. O documento ressalta a complexidade desses ativos e informa que, no caso da semaglutida, apenas a versão de origem biotecnológica, produzida de forma industrial e presente em medicamentos registrados, tem segurança e eficácia reconhecidas. Já para a tirzepatida, a manipulação é permitida apenas se forem rigorosamente cumpridos os padrões de qualidade, segurança e eficácia exigidos pelas farmácias de manipulação. Nos Estados Unidos, a FDA registrou mais de 100 notificações de eventos adversos envolvendo tirzepatida e semaglutida desde 2020, incluindo casos com risco de vida, 19 hospitalizações e pelo menos duas mortes, embora nem todos os relatos estejam plenamente esclarecidos.

O desafio da comunicação científica na era digital se agrava com o protagonismo das redes sociais como espaço de promoção e normalização do uso irregular desses medicamentos. Vídeos virais, posts patrocinados e conteúdos disfarçados de orientação médica descrevem soluções rápidas e milagrosas, sem nødvendidade de respaldo técnico-científico. A circulação irregular complica a identificação de procedência, dificulta o monitoramento de efeitos adversos e sobrecarrega o Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando a exposição da população a danos evitáveis.

O cenário também envolve alegações de que a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) tenha fechado acordo para produzir as canetas emagrecedoras no Brasil, fato que tem sido explorado por desinformação para dar legitimidade a conteúdos enganosos. Diante disso, este texto defende campanhas informativas claras e acessíveis, ampliação de mecanismos de escuta social para identificar dúvidas e narrativas em circulação, e o fortalecimento de canais institucionais de denúncia voltados à comunicação de vendas irregulares e conteúdos enganosos. A adoção de estudos empíricos, como análises de sentimento e mapeamento de conteúdos falsos em redes sociais e aplicativos de mensagem, pode subsidiar políticas públicas mais eficazes e o aperfeiçoamento da regulação das plataformas digitais. Sem dados e participação social, o combate à desinformação fica limitado; com esses elementos, é possível reduzir riscos, coibir práticas ilegais e proteger a saúde da população em um ambiente digital cada vez mais decisivo para escolhas em saúde.

Este texto foi publicado originalmente no site The Conversation Brasil.

Fonte: The Conversation Brasil, via G1.

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