Um dossiê que será divulgado nesta segunda-feira pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) revela que pelo menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025. O número representa uma queda de 34,4% em relação às 122 mortes contabilizadas em 2024, mas, segundo a Antra, o estudo mantém o Brasil pelo 17º ano consecutivo como o país mais perigoso para a população trans em todo o mundo. De acordo com o dossiê, a vítima mais nova tinha 13 anos. O perfil das vítimas é majoritariamente de jovens trans negras, empobrecidas, nordestinas e assassinadas em espaços públicos, com requintes de crueldade. Ceará e Minas Gerais registraram o maior número de mortes: 8 em cada estado. Bahia e Pernambuco aparecem com 7 casos cada, seguidos por Maranhão, Pará e Goiás com 5 casos cada. Paraíba, Paraná, Rio Grande do Norte e São Paulo somam 4 casos; Mato Grosso e Rio de Janeiro aparecem com 3 casos cada; Piauí e Rio Grande do Sul registram 4 casos cada; Alagoas, Distrito Federal, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul aparecem com 3 casos cada; Amazonas, Amapá, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Sergipe registram 1 caso cada, enquanto Acre, Piauí, Rondônia, Tocantins e Roraima não tiveram registros identificados. Entre os casos registrados estão os nomes de Paula Nascimento Batista, Valkiria Ferreira da Silva, Rhianna Alves, Carmen de Oliveira Alves, Neuritânia Pacheco, Gabriella da Silva Borges, Raquelly Leticia e Alice Martins Alves, mulheres trans assassinadas no Brasil em 2025.
Como é feito o levantamento? O dossiê da Antra leva em conta informações publicadas em reportagens, redes sociais e fontes não governamentais. Segundo a presidente da associação, Bruna Benevides, isso ocorre porque o Estado brasileiro ainda não produz dados próprios com esse recorte. Por fazer o relatório apenas com as informações disponíveis publicamente, a entidade reconhece um risco grande de subnotificação. Ou seja: o risco de que os números sejam ainda maiores. A ausência de registros em determinados estados está diretamente relacionada à subnotificação estrutural, à invisibilidade das identidades trans nos boletins de ocorrência, à recusa institucional em reconhecer crimes como transfóbicos e à dependência quase exclusiva da mídia para o mapeamento dos casos. Em locais onde a imprensa cobre menos a pauta ou onde há maior precariedade institucional, as mortes simplesmente não entram nos registros, diz Bruna Benevides. O documento ressalta ainda que o medo de represálias, a falta de acesso à Justiça, a violência policial e a desconfiança histórica das pessoas trans em relação ao Estado contribuem para o apagamento estatístico. Muitas mortes são registradas com nomes civis incorretos, gêneros errados ou nem sequer são identificadas como crimes de ódio, o que impede sua inclusão nos levantamentos, pontua a Antra.
Ser trans e envelhecer: realidade invisibilizada. Segundo a associação, isso vale inclusive para estados com zero casos de assassinatos de pessoas trans. O dado serve como um alerta, e não como um indício de tranquilidade. Os estados com “zero casos” representam, na maioria das vezes, territórios onde a violência não é documentada, onde vidas trans seguem descartáveis e onde o silêncio institucional substitui qualquer política real de proteção. O dossiê é explícito ao afirmar: quando o Estado não produz dados, ele também não assume responsabilidade, explica Bruna.
Número de assassinatos por estado. Dos assassinatos em 2025, 77 foram contra travestis e mulheres trans/transexuais e 3 contra homens trans e pessoas transmasculinas. Minas Gerais e Ceará registraram oito casos cada; Bahia e Pernambuco, sete casos cada; Maranhão, Pará e Goiás, cinco casos cada; Paraíba, Paraná, Rio Grande do Norte e São Paulo, quatro casos cada; Mato Grosso e Rio de Janeiro, três casos cada; Piauí e Rio Grande do Sul, quatro casos cada; Alagoas, Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, três casos cada; Amazonas, Amapá, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Sergipe, um caso cada; Acre, Piauí, Rondônia, Tocantins e Roraima não tiveram registros.
Caso emblemático em Minas Gerais. Uma das vítimas em 2025, Alice Martins Alves, tinha apenas 23 anos e foi espancada ao sair de um bar na Savassi, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Ela se levantou, foi embora e se esqueceu de pagar a conta de R$ 22. Por isso, foi perseguida e espancada por dois funcionários, segundo a polícia. Quando ocorreu o caso, a irmã de Alice, Gabrielle Martins, chamou a atenção para a realidade de pessoas LGBTQIA+ no Brasil. Afirmou que ainda existe negligência da sociedade e do poder público dentro do contexto social em que a irmã vivia.
Cautela sobre a “melhora” nos dados. O dossiê dedica um capítulo inteiro para explicar por que a redução numérica de casos registrados em 2025 não representa uma melhoria no cenário real. A pesquisa lista seis fatores principais: dificuldades crescentes de monitoramento, por falta de cooperação estatal e ausência de sistemas oficiais específicos para catalogar crimes contra a população trans; retração da mídia tradicional, já que 49% dos casos foram divulgados apenas em portais regionais de alcance limitado; controle nas redes sociais, com limitação de conteúdos que denunciam violência contra pessoas trans; ataques às organizações que monitoram esses crimes; medo e isolamento, com a população trans deixando de circular em espaços públicos como estratégia de sobrevivência; descrédito nas instituições, com vítimas e famílias deixando de registrar ocorrências por falta de confiança na polícia e no sistema de justiça. Um dado crucial expõe a complexidade do problema: 67,5% dos assassinatos ocorreram em cidades do interior, contra apenas 32,5% nas capitais. Essa interiorização da violência, em locais com acesso ainda mais restrito a redes de apoio, dificulta ainda mais a catalogação das mortes e sugere que a redução de registros em certas regiões pode ser um sintoma do isolamento geográfico das vítimas.
Combatendo a violência. A presidente da Antra destaca a necessidade de ações para o combate à violência contra travestis e transexuais. Segundo ela, são necessárias políticas específicas e integradas, entre elas: produção de dados oficiais com recorte de identidade de gênero; políticas de prevenção à violência, formação das forças de segurança; investigação adequada dos crimes; responsabilização dos autores; políticas de inclusão social; acesso a trabalho, saúde e educação, além do enfrentamento direto à transfobia institucional.
| Crédito: Foto: Thamy Frisselli
Fonte: g1.globo.com
Via g1
Publicação original no g1 em 26 de janeiro de 2026. Link: https://g1.globo.com/



















