73% dos cirurgiões dizem que já operaram algum paciente para retirada de um corpo estranho, aponta levantamento da USP

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Uma situação preocupante em hospitais pelo Brasil é a de pacientes que ficam com algum tipo de material cirúrgico dentro do corpo. Segundo o Ministério da Saúde, são mais de 500 casos desde 2022. No fim de 2025, em Minas Gerais, um homem morreu com uma pinça de 14 cm deixada no abdômen. Manuel Cardoso vivia no interior do estado e se aposentou após mais de duas décadas trabalhando como gari. Ele adoeceu no começo de dezembro de 2025 e, os exames indicaram uma úlcera gástrica. A cirurgia ocorreu no Hospital Municipal de João Pinheiro. Dois dias após ser transferido da UTI para a enfermaria, Manuel passou a sentir sono excessivo e perdeu o apetite. Por ter histórico de acidente vascular cerebral em 2023, a hipótese inicial foi de um novo AVC, mas a tomografia revelou algo inimaginável: uma pinça cirúrgica dentro do corpo dele. Foi necessária uma nova cirurgia, mas Manuel morreu em 24 de dezembro, três dias depois de completar 68 anos. “Foi o pior Natal da minha vida. Eu fiquei sem chão”, desabafou Samuel Cardoso Rezende de Brito, filho de Manuel.

Levantamento e protocolos

Um estudo da Universidade de São Paulo com 2.872 cirurgiões do país apontou que gazes e compressas são os objetos mais esquecidos durante cirurgias. Por isso, os instrumentos usados nas salas de cirurgia costumam vir com um fio visível no raio-x para facilitar a identificação. “Você consegue chamar um raio-x na sala e isso aqui você consegue identificar no paciente”, afirma Fabiana Makdissi, cirurgiã oncológica do A.C. Camargo.

Existe um protocolo que as equipes médicas devem seguir nas cirurgias. Todo o material deve vir em uma caixa que precisa chegar lacrada ao centro cirúrgico. Os itens devem ser contados antes do início da cirurgia, novamente antes do cirurgião suturar o paciente e uma terceira vez ao final do procedimento. O número de itens que entram na sala precisa ser igual ao que sai.

O protocolo de cirurgia segura foi criado pela Organização Mundial da Saúde em 2009 e serviu de modelo para o protocolo adotado no Brasil a partir de 2013. Muitas das práticas sugeridas nesses documentos foram baseadas em conhecimentos de uma outra área, onde é preciso checar, rechecar e checar novamente todas as informações em nome da segurança: a aviação. “Começou a se estudar o que foi feito na aviação para chegar no grau de segurança que eles têm hoje. Uma das coisas que mais se fazia era aplicação de checklists, com itens para você checar para não ter que depender da memória e da atenção”, explica Lucas Zambon, diretor do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente. “O mais importante de tudo isso são todas as etapas que antecedem esse processo. Todo esse treinamento para que as coisas aconteçam da melhor forma possível”, afirma Fabiana Makdissi.

O levantamento da USP sobre objetos esquecidos em cirurgias, feito com 2.872 cirurgiões do país, trouxe um alerta: 43% deles afirmaram que já esqueceram algo em alguma cirurgia; 73% disseram que já operaram algum paciente uma ou mais vezes para retirada de um corpo estranho. “É uma falha que não pode acontecer sob hipótese alguma”, afirma Mauro de Britto Ribeiro, diretor do Conselho Federal de Medicina.

Crédito da foto: Fantástico/Reprodução. Fonte: g1.globo.com.

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