A polilaminina, proteína desenvolvida em laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ganhou grande repercussão nas redes sociais após ser associada à possível regeneração de conexões nervosas na medula espinhal. A substância passou a ser citada como potencial “cura” para lesões medulares, mas especialistas alertam que ela ainda não é um medicamento aprovado e que as evidências disponíveis são preliminares.
A pesquisa é liderada pela bióloga Tatiana Sampaio e investiga a capacidade da proteína sintética — inspirada na laminina, substância naturalmente presente no organismo — de estimular a regeneração de axônios e restabelecer a comunicação entre neurônios. Estudos anteriores indicaram melhora locomotora em ratos com lesão medular e, mais recentemente, em cães paraplégicos. Resultados em humanos foram divulgados em formato de pré-print, ou seja, ainda sem revisão por pares.
Em nota conjunta, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e a Academia Brasileira de Ciências destacaram que, em áreas como a neurodegeneração, o caminho entre descoberta científica e incorporação clínica é longo e depende de validações rigorosas. Pesquisadores ressaltam que os estudos até agora envolveram número reduzido de participantes e não contaram com grupo de controle, o que dificulta afirmar que a melhora observada decorreu diretamente da substância.
Em janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o início dos testes clínicos de fase 1, etapa que avalia a segurança do composto em humanos. Ao todo, cinco voluntários devem receber a aplicação inicial. Caso seja considerada segura, a polilaminina ainda precisará passar por fases 2 e 3, que envolvem centenas de participantes e comparação com grupo controle, antes de eventual pedido de registro.
Enquanto isso, cresce o número de ações judiciais movidas por pacientes que buscam acesso ao uso compassivo da substância. Até o fim de fevereiro, dezenas de pedidos já haviam sido encaminhados ao Judiciário. Especialistas alertam que a judicialização pode interferir no andamento dos ensaios clínicos e reforçam que a substância não está disponível para comercialização.
O processo completo de desenvolvimento de um medicamento pode levar de cinco a dez anos. Até que todas as etapas sejam concluídas e os dados revisados por outros cientistas, a recomendação é cautela diante do entusiasmo nas redes sociais.
Fonte da matéria: g1 Globo
Crédito da foto: Reprodução / TV Globo
Data: 1º de março de 2026
















