Bebê nascida em parto de emergência após acidente com 12 mortos em MG completa 1 ano: ‘Ela é a nossa cura’

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Aurora é a luz que antecede o nascer do sol. É o anúncio de um novo dia, de um recomeço. A filha de Jailsa Alves dos Santos e Guilherme Augusto de Oliveira carrega o mesmo nome e tem o mesmo significado na vida dos pais. Na última quarta-feira (8), a pequena completou o primeiro ano de vida. A mesma data que também marca um ano do trágico acidente na MG-233, em Araguari, que tirou outras 12 vidas.

É uma mistura de gratidão por estar aqui, estar bem. Ao mesmo tempo, vem tudo que a gente viveu. Não tem como esquecer. Eu não vejo a hora, daqui 10 anos, 20 ou 30 anos, que esse dia seja só o aniversário da minha filha. Que não seja o marco de uma tragédia, de uma memória triste, seja só o aniversário dela. Mas eu sei que vai demorar, contou a mãe ao g1.

No dia 8 de abril de 2025, o casal estava entre os 53 passageiros que faziam o trajeto de Anápolis, em Goiás, a São Paulo, em ônibus da Viação Real Expresso, que pertence ao Grupo Guanabara. Próximo à Araguari, no Triângulo Mineiro, o motorista perdeu o controle da direção, saiu da pista e o veículo tombou. Dez pessoas morreram no local, e outras duas após receberem atendimento em unidades de saúde.

Jailsa, grávida de oito meses, foi socorrida em estado grave. Ela foi levada para o Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, onde precisou amputar o braço esquerdo devido aos ferimentos. Ainda no mesmo dia do acidente, passou por um parto de emergência e deu à luz Aurora, que nasceu com 1,4 kg.

A família continua morando em Campinas, em São Paulo, onde tenta reconstruir a rotina após o acidente. A mãe faz questão de que a dor das lembranças não alcance a filha.

Na manhã que marcou um ano do acidente, a bebê acordou com balões rosa espalhados pela sala, um banquete de frutas e um bolinho com vela. Rodeada de bonecas e bichos de pelúcia, a pequena ouviu o “parabéns para você” cantado pelos pais, com um sorriso no rosto.

Ela é uma criança muito alegre, não tem um dia ruim pra ela, ela acorda feliz. E ela está ótima, graças a Deus, não teve sequela. Continua fazendo acompanhamento pelo SUS, porque a empresa não concedeu nada a gente, detalhou a mãe.

Vida após o acidente

Após dois meses de internação, Jailsa deixou o hospital como sobrevivente de um grave acidente, mãe de primeira viagem e com uma missão importante pela frente: se adaptar à vida sem um dos braços. Guilherme foi peça-chave nesse período. Ele ficou meses sem trabalhar para dar o suporte necessário à esposa e à filha. A família alega que o Grupo Guanabara deixou de prestar assistência, o que comprometeu a reabilitação de Jailsa e o acompanhamento de Aurora.

Aurora era muito pequena, Jailsa não conseguia cuidar dela sozinha, aí fiquei sem trabalhar para ajudar, voltei só este ano. E a empresa parou de responder, de dar apoio, desde três meses depois do acidente. Falaram que tinha exames que a bebê tinha que fazer, falaram que iam marcar, mas até hoje, nada!, revelou o pai.

Jailsa pretende, no futuro, colocar uma prótese para ter mais autonomia no dia a dia. O casal afirma que já entrou com um processo judicial contra a empresa para tentar reverter a situação.

Em nota, o Grupo Guanabara informou que após o acidente tomou todas as providências e atenção às vítimas com a devida hospitalização e tratamentos das feridas e todo o suporte às famílias. Segundo a empresa, parte das vítimas teve reparação realizada em acordo firmado com a empresa, contudo Jailsa preferiu levar o caso a juízo, mesmo tendo sido oferecido suporte pós e acordo indenizatório. Assim, ainda conforme a empresa, o caso segue sendo discutido na justiça, cabendo ao Grupo Guanabara o pronto cumprimento da decisão proferida pelo juízo.

Depois de um ano marcado por dor, recomeços e aprendizados, Jailsa olha para a filha como quem encontra, todos os dias, um motivo para seguir em frente. Quem faz aniversário é Aurora. Quem faz o desejo — mesmo sem soprar a vela — é a mãe. Eu desejo ver ela andar, correndo por aí. Quero viver tudo sem pressa. Porque ela enche nossa casa de alegria. Ela é a nossa cura., finalizou.

A mesma data do acidente trágico marca também um ano de vida de Aurora.

Relembre o acidente de ônibus com 12 mortos

Um ônibus da Viação Real Expresso havia saído de Anápolis, Goiás, por volta das 20h30 do dia 7 de abril, com destino a São Paulo. Na madrugada do dia 8, o motorista perdeu o controle da direção, saiu da pista e o veículo tombou. Dez passageiros morreram no local e outros dois chegaram a ser socorridos, mas não resistiram aos ferimentos. A 12ª morte foi confirmada cerca de um mês após o acidente.

Quem são as vítimas mortas no acidente? Todas as 12 vítimas do acidente foram identificadas. Entre elas estão duas crianças de 2 e 6 anos, três homens entre 40 e 69 anos, além de três mulheres entre 53 e 62 anos. Dez vítimas não resistiram aos ferimentos e morreram no local do acidente. Outras duas mulheres, levadas para o Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, morreram durante a internação.

O que se sabe sobre os feridos? Doze feridos foram atendidos no local, 18 foram para hospitais, e 18 tiveram ferimentos leves e recusaram atendimento. Foram encaminhados para a UPA de Araguari 17 passageiros, com um ainda internado. Nove passageiros foram para o HC-UFU, entre eles uma gestante que teve o braço amputado e precisou de cesariana para o parto de emergência. A bebê nasceu com 1,4 kg e foi internada na UTI neonatal; mãe e filha permanecem.

Qual foi a causa do acidente? A PM informou que o motorista dirigia em alta velocidade, tentou contornar um trevo e tombou. Um sobrevivente relatou que o veículo atrasou uma parada prevista, em Goiânia, e o motorista disse que iria acelerar para compensar. A Polícia Civil indiciou o motorista por 12 homicídios qualificados por impossibilidade de defesa das vítimas, além de tentativa de homicídio em relação aos feridos. O ônibus trafegava acima da velocidade permitida no momento do tombamento.

Qual é a empresa responsável pelo ônibus? O ônibus pertence à Real Expresso, do Grupo Guanabara. A empresa informou que colaborava com as investigações e prestava apoio às famílias.

O ônibus estava regularizado? A ANTT informou que o veículo estava com a documentação e cadastros regulares para o transporte interestadual de passageiros, possuía seguro, certificado de segurança veicular válido, cronotacógrafo aferido e habilitado.

O que diz a Real Expresso sobre o acidente? A empresa afirmou lamentar o ocorrido, informar que equipes foram mobilizadas para prestar apoio, que 11 vítimas teriam falecido até o momento e que os feridos estavam em hospitais locais. Segue trabalhando com as autoridades para esclarecer as causas e oferecendo apoio às famílias, com canal de atendimento 24 horas.

O que diz a ANTT sobre o acidente? A ANTT afirmou que o veículo seguia de Anápolis (GO) para São Paulo (SP), estava regularizado, possuía seguro e cronotacógrafo apto, e que acompanha o caso junto a outros órgãos, instaurando processo administrativo para monitorar as informações.

Ônibus tombou na MG-223 em Araguari, no local conhecido como Trevo do Queixinho. Equipes dos Bombeiros, Samu e PM de cidades da região se mobilizaram no atendimento às vítimas. O motorista seguia de Anápolis para São Paulo, quando perdeu o controle em trevo próximo à Araguari.

Crédito da foto: Corpo de Bombeiros/Arquivo Pessoal. Fonte: G1. Publicado originalmente em g1.globo.com, em 12 de abril de 2026, às 05:00.

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