Uma carta psicografada por Chico Xavier ajudou a salvar um jovem de ser condenado por matar um amigo, segundo o juiz aposentado Orimar de Bastos, que assinou a sentença em 1979. O réu foi absolvido em julgamento que aceitou como prova uma carta considerada da própria vítima, na qual Maurício Garcez Henrique, então com 15 anos, afirma que o tiro ocorreu durante uma brincadeira. A decisão repercutiu em todo o país e chegou a ganhar atenção no exterior.
O caso ocorreu a 8 de maio de 1976, em Goiânia. José Divino Nunes, na época com 18 anos, foi acusado de matar o amigo Maurício Garcez Henrique, que tinha 15 anos, com um tiro. Segundo informações veiculadas pelo jornal O Popular, o pai de Maurício, José Henrique Garcez, foi chamado ao Hospital Santa Rosa, onde encontrou o filho morto. Maurício estava na casa do amigo quando foi baleado; as suspeitas recaíram sobre José Divino, acusado de homicídio doloso, com intenção de matar.
Em entrevista ao g1, o juiz Orimar contou que, anos após a morte, pegou o caso por acaso ao cobrir um plantão de férias de 15 dias na 2ª Vara Criminal de Goiânia. Ao tomar conhecimento do processo, ele se deparou com uma carta psicografada apresentada pela defesa. Leu, releu a carta de Maurício, na qual a vítima relata que o ocorrido foi apenas um incidente.
Maurício Garcez foi morto pelo amigo em 1976, em Goiás. A carta ditada pela vítima a Chico Xavier foi publicada na íntegra pelo jornal O Popular após o julgamento. Nela, o jovem relatava tudo o que aconteceu naquele dia, além de afirmar que sua morte foi um acidente. Na sentença que absolveu José Divino, Orimar citou a carta, dizendo que era preciso dar credibilidade às palavras de Maurício, que inocentavam o amigo.
José Henrique e Dejanira Garcez, pais da vítima, estavam inconsolados com a morte do estudante e procuraram Chico Xavier, médium e uma das figuras mais importantes do espiritismo no Brasil. Em entrevista ao g1, Dejanira, hoje com 85 anos, relembra que, nas primeiras visitas, receberam apenas pequenos recados. Neles, Maurício dizia que estava bem tratado e junto de familiares. José Henrique, em entrevista ao g1, contou que somente um ano após a morte a família recebeu a primeira carta em que o adolescente relatava o que de fato teria ocorrido. “A primeira mensagem dele veio inocentando o menino, dizendo que o culpado era Maurício mesmo, que em vez de ir para a aula, ele foi para a casa dele”, recorda.
A carta chegou em maio de 1978, em uma reunião pública do Grupo Espírita da Prece, em Uberaba, e Chico Xavier psicografou a carta na qual Maurício inocentava o amigo. Depois do caso, os Garcez, que eram católicos, tornaram-se espíritas praticantes. “O José Divino e nem ninguém teve culpa em meu caso; brincávamos sobre a possibilidade de ferir alguém, pela imagem no espelho, sem que o momento fosse para qualquer movimento mau. O tiro me atingiu, sem que a culpa fosse do amigo, ou minha”, diz a carta.
Dejanira relata que Chico Xavier psicografava cartas por longas horas e que era “impossível duvidar” da veracidade das mensagens. Além da credibilidade do médium, ela afirma que a assinatura na carta era a mesma que Maurício usava nos documentos. “A assinatura é do meu filho, era dele. Quando eu vi o Chico psicografando, não tive dúvida nenhuma. Fiz o que o Maurício pediu”, afirma.
A carta psicografada foi anexada ao processo pela defesa do réu e aceita como prova pelo juiz Orimar de Bastos. Assim, a versão de que o tiro foi acidental, dita por Maurício na carta e alegada pela defesa de José Divino, foi aceita no julgamento. “A vítima pegou um revólver de dentro da pasta do pai do acusado. Maurício tirou dele as balas e acionou o gatilho duas vezes em direção ao seu colega, por brincadeira. Ele disse que deixasse a arma, tomando-a das mãos”, descreve uma reportagem do O Popular. Segundo o juiz, ao disparar, José Divino brincava com a arma em frente ao espelho. Sem que os meninos soubessem, restava uma bala no revólver, que provocou a morte de Maurício quando José puxou o gatilho ao entrar no quarto.
Na sentença, ele citou a carta psicografada e disse que era preciso dar credibilidade ao texto, que coincidia com a versão do acusado. Além disso, laudos periciais comprovaram que tudo não passou de um acidente. “Coloquei na sentença: temos que dar credibilidade a essa causa psicografada em que o morto havia alegado que não foi intenção dele atirar e matar”, explica.
Jornais da época destacaram a atuação de Chico Xavier. Orimar, que na época era católico, relatou que nunca havia entrado em um Centro Espírita antes do julgamento. Hoje, aposentado há mais de 40 anos, ele afirma ter a consciência tranquila sobre o desfecho do caso e não se arrepende da decisão. “Eu tenho esse tempo todo aposentado, com a consciência tranquila. Cumpri minha obrigação, meu dever, como juiz”, afirma.
Após o julgamento, Chico Xavier quis conhecer o juiz e o convidou para visitar sua casa em Uberaba. Orimar comenta que recebeu um recado do médium para não negar a verdade do caso e para contar como foi a história por muitos anos.
Crédito da foto: Arquivo Dejanira Garcez
Fonte: g1 Goiás
Texto originalmente publicado pelo portal de notícias g1.


















