Apenas 24 horas separam a ocorrência de dois crimes de grande repercussão em Minas Gerais: o cárcere privado de um menino de 7 anos e um rapaz, de 23, em Belo Horizonte, e o sequestro de uma mulher, de 50, em Governador Valadares, no Rio Doce. Ambos os casos, que ocorreram tão próximos um do outro, chamam a atenção pela violência e revelam um aumento do número dos crimes deste tipo em Minas Gerais. Entre janeiro e agosto deste ano, foram somados 157 delitos, uma média de um a cada 36 horas. O número de sequestros e cárceres privados registrados em entre janeiro e agosto de 2022 só não é maior do que aquele somado, no mesmo período, de 2018 ( quando ocorreram 187 casos), conforme dados da segundo dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sejusp).
O pequeno Arthur e Giovani Leonardo, de 23 anos estavam na casa da mãe do menino, de 25, quando foram surpreendidos por Leandro Mendes, de 39, que é ex da mulher. Eles foram presos em um quarto e a moça fugiu. Eles só saíram do cativeiro, localizado no bairro Parque São Pedro, na região de Venda Nova, após quase 16 horas. Leandro não cedeu às negociações e um atirador de elite o acertou. Ele afirmava que “a última bala seria dele”. O agressor sobreviveu e está internado no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII.
Já a funcionária pública Analaci Ramos de Oliveira, de 50, estava a caminho do trabalho, em uma bicicleta, quando um carro se aproximou e ela foi forçada a entrar no veículo por um homem. A filha da vítima, Dieuryslane Ramos Rocha, chegou a negociar com os sequestradores, mas não obteve sucesso. Dois suspeitos foram presos, mas o paradeiro de Analaci segue sendo um mistério. A Polícia Civil investiga o caso.
Os casos são exemplos da escalada que este tipo de delito teve desde 2020, ainda segundo dados da Sejusp. Há dois anos, de janeiro a agosto, o total foi de 123; em 2021, o dado aponta para um aumento de 149 crimes. Já neste ano, no mesmo período, Minas Gerais alcançou a marca de 157 crimes consumados. Na comparação do período de janeiro a agosto de 2020 e 2022, o aumento foi de 27.6%. Já entre os anos de 2022 e 2021, o crescimento foi de 5.3%.
Perigo pode estar perto
Ambos os crimes que ocorreram na semana passada mostram diferentes métodos de atuação dos criminosos. Segundo a delegada Fabíola de Oliveira, da Delegacia Especializada Antissequestro, assim como no caso do cárcere privado que ocorreu em Belo Horizonte, a maior parte destes crimes envolvem pessoas com quem a vítima se relaciona ou é familiar.
“Esse período da pandemia, quando as pessoas ficaram mais reclusas, também facilitou esse tipo de crime, já que o que mais chega para a gente são os que envolvem relacionamento. Também acontece muito privação de liberdade para vingança, por causa do tráfico de drogas, por exemplo”, detalha a delegada.
Já no caso que envolve a servidora pública de Governador Valadares, a delegada explica que são crimes que se beneficiam do fator surpresa – situações que ocorrem de repente e que são difíceis de se evitar. No entanto, existem comportamentos que podem ser observados, uma vez que certas abordagens exigem uma investigação por parte dos criminosos. Caso haja essa suspeita, as autoridades devem ser acionadas.
“Se a pessoa vem notando comportamentos violentos, é bom que ela procure uma delegacia e denuncie, para evitar que se chegue a este ponto. Se tiver qualquer suspeita de que pode vir a ser vítima, caso haja alguma ameaça ou mesmo tentativas frustradas, procure ajuda, relate isso às forças policiais, para que possamos agir”, orienta a delegada.
Denúncia não é sinônimo de paz
Apesar disso, nem todas as vítimas conseguem se sentir seguras mesmo após denunciarem o crime. É o caso de uma jovem de 21 anos que, em julho deste ano, foi resgatada na casa de um homem de 32 anos após passar 15 dias em cárcere privado na casa dele, no bairro Sagrada Família, na região Leste de Belo Horizonte. Segundo ela, o suspeito acabou liberado pela polícia, ainda no mesmo dia.
“Por isso mulheres morrem todos os dias, a gente grita pelos nossos direitos e não somos ouvidas. Eu representei contra ele na Polícia Civil, me deram medida protetiva, mas ele saiu e no mesmo dia já foi atrás de mim de novo. Queria fazer um apelo, pois foi uma injustiça. Por isso, infelizmente, falo que, em alguns casos, ou matamos eles ou nós, mulheres, é que seremos mortas”, protestou a vítima.
A reportagem questionou a Polícia Civil sobre o porquê de o suspeito ter sido liberado, mas não obteve resposta, até a publicação desta matéria.
Denúncia de vizinhos é essencial
Outra atitude importante, conforme a delegada Fabíola de Oliveira, é que vizinhos ou qualquer pessoa que testemunhar um caso suspeito de sequestro ou cárcere privado denuncie o caso à polícia o quanto antes. “A pessoa pode fazer uma denuncia anônima pelo telefone 181. A gente recebe muito desse tipo de informação, fazemos a checagem e, felizmente, a maioria das denúncias não têm fundamento. Mas, nesses casos, é melhor pecar pelo excesso, pois, na maioria das vezes, as vítimas reais não têm qualquer chance de pedir ajuda”, orienta.
Este foi o caso de um comerciante de 54 anos que, no último domingo (25), acionou a polícia após ele e outros moradores verem pela grade do vizinho uma mulher amordaçada e acorrentada, no bairro Industrial, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. A garota de programa de 26 anos foi estuprada e mantida por dois dias no imóvel por um casal.
“Na hora que vimos já acionamos a polícia e, graças a Deus, conseguiram libertar ela e prender estes dois. Se eu vejo qualquer coisa errada, eu denuncio na hora”, garantiu.
Fonte: O Tempo.















