A rede pública de saúde de Belo Horizonte inicia 2023 com cerca de 22 mil pacientes na fila de espera por uma cirurgia eletiva. Otorrino, ortopedia, urologia, neurologia e cirurgia geral são as especialidades com maior demanda. Embora esforços tenham sido mobilizados para aumentar o número de procedimentos — afetados pela pandemia da Covid-19 devido à utilização de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) — a falta de médicos, especialmente anestesistas, é um desafio para os gestores.
A espera pelas intervenções pode agravar o quadro de saúde dos pacientes. É o caso do pequeno Josué Amorim Rodrigues, de 2 anos. Desde outubro de 2021, a família espera por um procedimento para tratamento do pé torto congênito, que o impede de andar. “É muito demorado. É uma espera sem fim. A gente sofre porque vemos nosso filho sofrer”, afirma a mãe, Sabrina Pâmela de Amorim, de 32 anos.
“Ele não consegue firmar os pés no chão. Ele tenta, mas não consegue. Isso retarda o desenvolvimento. Ele já deveria ter feito a cirurgia há muito tempo”, lamenta Sabrina. Segundo ela, as ligações para os centros de saúde à procura de um prazo para o procedimento são frequentes: “Aguarde. É demorado mesmo”, é a resposta que ela sempre ouve, conforme relata.
Os dados são divulgados em meio à aprovação, em dois turnos na Câmara Municipal de Belo Horizonte, do Projeto de Lei (PL) 156/2021, que aumenta a transparência em relação à marcação de cirurgias eletivas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Belo Horizonte. O texto segue para redação final e, em seguida, será levado para sanção ou veto do prefeito da capital mineira, Fuad Noman (PSD). A proposta prevê aos pacientes verificar a posposição para a marcação do procedimento.
Em 2022, foram realizadas em Belo Horizonte, pela rede SUS, cerca de 30 mil cirurgias eletivas, alta de 35% em relação a 2021. Em novembro do ano passado, a média era de 3,2 mil procedimentos por mês, números próximos aos patamares anteriores à Covid-19. Contudo, insuficientes para resolver um problema que antecede a pandemia.
A falta de médicos, principalmente anestesistas para realizar as operações pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é o grande desafio para reduzir a fila, avalia a subsecretária de Atenção à Saúde de Belo Horizonte, Taciana Malheiros. Do público à espera do procedimento na saúde pública de BH, 64,4% são pacientes belo-horizontinos e 35,2% de outros 500 municípios do Estado, cadastrados na Central de Internação da Secretaria Municipal de Saúde.
Mais do que investimentos em ampliação de leitos hospitalares e construção de centros cirúrgicos, a subsecretária afirma ser importante olhar para as escalas médicas incompletas. “O grande desafio que temos é a força de trabalho. Para além da ampliação estrutural, é importante considerar que os profissionais são essenciais para conseguirmos essa ampliação da oferta de cirurgias eletivas”, afirmou.
A solução para a falta de médicos na rede SUS passa por melhorar as condições de trabalho, avalia o médico e ex-secretário de saúde de BH Jackson Machado. “Vamos encontrar essa dificuldade enquanto não tiver uma carreira no país para médicos e profissionais de saúde”. Segundo ele, para atrair os profissionais, é necessário investir em estabilidade e na possibilidade de promoção para os cargos.
“A remuneração no SUS não é reajustada há anos. Os profissionais muitas vezes não se sentem motivados financeiramente e preferem atender pelo plano de saúde”, afirma, opinando que não faltam profissionais formados e, sim, condições atrativas de trabalho na rede pública.
Não é ‘opcional’
“Cirurgia eletiva não significa procedimento opcional”, pontua a médica e pesquisadora em cirurgia e sistemas de saúde em Harvard, Isabella Faria. A demora para realizar os procedimentos em decorrência da fila de espera pode trazer repercussões negativas para os pacientes e contribuir para piora clínica e avanço de doenças.
“A cirurgia eletiva significa que, no momento do agendamento, o paciente não corria risco de perder a vida. Algumas vezes, são cirurgias essenciais para melhorar a qualidade de vida. Em outras, são procedimentos que podem evitar a morte, como no caso de detectar um câncer”, pontua.
Dores e outras complicações também podem piorar com a demora, prejudicando o paciente em diversos aspectos da vida pessoal, considera a especialista. “É importante a gente lembrar que essa fila não é apenas um número. Cada paciente na fila é uma pessoa, com uma história médica e uma história pessoal própria, e essa demora pode ser angustiante para quem aguarda há tanto tempo”, completa.
Fonte: O Tempo.
















