Milhões e milhões de brasileiros contam os dias para a chegada do Carnaval, festa que reúne multidões de norte a sul do país em desfiles de escolas de samba ou dos tradicionais bloquinhos – em BH, por exemplo, estima-se que 5 milhões de pessoas passem pela cidade. Para quem ama esse período do ano, a rua se torna um verdadeiro sambódromo, e cinco dias de feriado parecem pouco diante de tanta expectativa e desejo de celebrar e extravasar.
No entanto, há quem prefira fugir das aglomerações, dos sons de bateria e da música que embala a folia. Pode parecer estranho – e não deveria soar tão peculiar – para muita gente, mas há, no seio de uma sociedade tão diversa, quem não goste, mesmo, de Carnaval, por variadas e distintas razões.
O artista e escritor Bruno Grossi Begê, 41, nunca gostou de estar em lugares que reúnem multidões, mas, quando mais jovem, até participou de algumas festas, acompanhou blocos e teve suas experiências carnavalescas para contar história. Não deu muito certo. Além de não gostar do ritmo musical característico das folias, Begê viu que forçar a barra para socializar, fazer parte de uma turma ou acompanhar os amigos trazia prejuízos físicos e emocionais.
“Por mais que eu tenha tentado participar, vi que não era um ambiente que me fazia bem. Quando eu chegava em casa, ficava muito mal, cansado ou com ressaca mesmo sem beber, com o corpo ruim. Até que fui parando de ir nesses movimentos”, ele conta. “De um tempo para cá, entendi que valia muito mais a pena ficar em casa, na minha”, completa.
O belo-horizontino já morou em Tiradentes e atualmente vive em São João del-Rei, cidades cujos Carnavais tradicionais se misturam a manifestações artísticas e culturais nas históricas ruas de Minas Gerais. Mesmo tendo como ofício a pintura, a ilustração e a literatura infantil, Begê prefere passar o feriado trabalhando ou vendo filmes e séries em casa: “Fico fazendo alguma atividade que me agrade, desenhando, pintando, escrevendo no computador. Na minha casa não chega a barulheira do Carnaval, então está de boa, é como se nem tivesse Carnaval”.
Há poucos anos, Begê descobriu ser autista. Em São João del-Rei, a Associação Pró-Autistas (Aspas) fará uma folia especial para as pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista, o TEA. Será um Carnaval sem música. “Vai ser ótimo, as pessoas se encontrarão, farão sua própria festa e curtirão o Carnaval ao seu próprio modo”, pontua o artista.
Embora não seja fã da folia que arrasta multidões Brasil afora, Bruno Grossi Begê faz questão de esclarecer que não tem nenhum conceito ou filosofia contra o Carnaval e sua legião de apaixonados. Segundo ele, toda manifestação cultural que traz bem-estar deve ser bem recebida, desde que não reproduza violência, assédio e preconceitos: “Quando eu manifesto que não gosto de Carnaval, sempre tem isso de acharem estranho ou até mesmo de pensarem que eu não gosto de quem gosta de Carnaval. As pessoas confundem as coisas. Não estou criticando o movimento, eu só não gosto de ficar em lugares cheios. Tenho problemas fisiológicos, passo mal, desmaio. O que me faz bem é ficar em casa”.
A psicóloga Gladislena Colodetti, 57, mora com o marido na avenida Álvares Cabral, entre a avenida Afonso Pena e a rua Goiás, no centro de Belo Horizonte. Há pouco mais de dez anos, o Carnaval, antes considerado por ela “o melhor feriado do ano em BH”, já que a cidade ficava às moscas devido à falta de folia, se transformou em um verdadeiro pesadelo para ela, que mora em um dos principais pontos da festa na capital mineira. Por ali, milhões de pessoas seguem blocos tradicionais como a Banda Mole, o Baianas Ozadas e os blocos caricatos das escolas de samba.
Fonte: O Tempo. Foto: PixBay.













