Fechamento recorde de empresas afeta a economia e a saúde mental

Por Dentro De Tudo:

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A reportagem do Jornal o Tempo publicou uma matéria muito interessante sobre o fechamento de empresas durante a pandemia, o que afeta a economia e a saúde mental. Medidas de restrição de funcionamento de negócios em função da pandemia geram clima de tensão, além de quadros de ansiedade entre os empresários.

A instabilidade financeira é reflexo de uma realidade que atinge em cheio comércio e serviços. Nunca se fecharam tantas empresas como em 2020: 113 por dia, segundo dados da Junta Comercial, o maior índice de extinção da história. A pandemia abalou não apenas os negócios, mas também a saúde mental dos empresários. É que, junto com os prejuízos, vieram os sintomas: depressão, ansiedade, estresse, insônia e as dívidas.

De acordo com a analista de relacionamento do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae-MG) Laurana Viana, esse medo de ter que demitir era também a maior inquietude dos empresários que buscaram orientação na instituição para enfrentar a pandemia. “Ouvimos vários relatos de patrões muito tristes ao pensarem que teriam que demitir chefes de família, que não teriam mais como colocar arroz e feijão na mesa. Pelo semblante deles, a gente já conseguia sentir o quanto a situação estava gerando tristeza. Ouvimos muitos casos de insônia e crises de ansiedade”, afirma a analista.

Quebradeira

41.436 empresas foram extintas no Estado em 2020, número 5,5% maior do que em 2019. “Muitos empresários estão desesperados. Tem muita gente completamente endividada, perdendo o patrimônio para bancar os negócios. A pressão é muito grande. Eu duvido que tenha algum comerciante que durma oito horas por dia”, conta o presidente da Associação de Lojistas do Hipercentro, Flávio Froes Assunção.

Medo de demissão desorienta trabalhadores

Fecha tudo que não for essencial! Para o comércio, essa determinação de março de 2020, que tinha como objetivo barrar o avanço da Covid-19, restringiu muito mais do que a circulação de pessoas. Sem vender, a renda caiu, e, quanto mais os lucros despencavam, mais as preocupações disparavam. A situação tirou o sono de empregadores e funcionários.

Uma pesquisa exclusiva da CDL indica que, para 9,6% dos lojistas da capital, o maior receio é demitir e não pagar os fornecedores.

Sintomas de ansiedade em 80% dos empresários

Estudo mostra que empreendedores têm nível de sofrimento psíquico equivalente ao apresentado pelos profissionais da saúde na pandemia.

As incertezas quanto à vida e aos negócios criadas pelo contexto da pandemia têm mexido com a cabeça de empreendedores. Oito de cada dez deles apresentaram sintomas, mesmo que em níveis baixos, de estresse, ansiedade e depressão. O levantamento, feito pela aceleradora Troposlab em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mostrou ainda que a saúde mental desses empresários foi afetada em graus parecidos com o que ocorreu com os profissionais da saúde envolvidos no combate à Covid-19.

“Os mesmos pesquisadores da UFMG que atuaram nessa pesquisa estavam estudando a saúde mental dos profissionais de saúde, por isso conseguimos comparar. O que ocorre é que os dois grupos estão imersos nessa crise imposta pelo avanço da doença e convivendo com os desafios que o vírus trouxe”, explica uma das responsáveis pelo estudo, Marina Mendonça de Sousa.

A pesquisa comprovou também que, quanto mais o empreendedor sente o ambiente de negócios incerto, maiores são os níveis de adoecimento psicológico, e vice-versa.

Na avaliação da analista de relacionamento do Sebrae-MG Laurana Viana, ao mesmo tempo em que a pandemia trouxe tantas incertezas, também despertou em muita gente, como Cristina, a necessidade de mudar. “No Brasil, o comércio é tradicionalmente de rua, as pessoas entram, pegam os produtos, experimentam. Antes, a gente tinha muito menos cultura de vendas online. Com o isolamento, muita gente teve dificuldade, mas foi preciso se adaptar rápido. A forma de reagir interfere na saúde mental. Quando a pessoa está numa situação depressiva, é como se tivesse um muro, e ela tem escolhas: ou escala, ou derruba, ou não faz nada. A pandemia foi um grande muro para os empresários. Muita gente foi afetada, mas muitos conseguiram se adaptar”, afirma.

Carga emocional

Pelo menos um de cada quatro empresários (27,6%) já teve algum sintoma de depressão e ansiedade durante a pandemia, que tirou o sono de 57,1% deles e gerou taquicardia em 42,9%. Os dados são da pesquisa que a Câmara Dirigentes Lojistas (CDL-BH) fez com exclusividade para a série de reportagens “Tá tudo bem?”. Segundo o levantamento, o maior medo (35,5%) é o de quebrar o negócio.

Diante de tanta angústia entre os comerciantes, até advogados estão fazendo papel de psicólogos. Dentro da CDL, a função da Yasmin Batista é fornecer orientações jurídicas gratuitas aos associados. Mas essa ajuda tem ido muito além das dicas de legislação. “Nossa demanda aumentou muito, principalmente quando o município determinava o fechamento do comércio em Belo Horizonte. Às vezes, sem saber o que fazer com os funcionários, contratos e fornecedores, alguns até choram ao telefone, e a gente passou a ouvir os desabafos. Acaba virando uma terapia”.

Para ajudar os próprios funcionários, abalados com as mudanças da rotina impostas pelo home office, a CDL implantou a Escuta Ativa. “As pessoas não estavam acostumadas a trabalhar em casa, conciliando com as tarefas domésticas e todos os desafios do distanciamento. Começamos a receber vários relatos e percebemos a necessidade da expressão dos sentimentos e implantamos o acolhimento por meio da escuta”, diz a psicóloga Dariane Dantas.

Reportagem: O Tempo.

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