Nos últimos dias, a Universidade de São Paulo (USP) divulgou uma nova pesquisa, e um número acabou chamando a atenção. Segundo o levantamento realizado com pacientes de um hospital de João Pessoa, na Paraíba, 92% dos pacientes que passaram pela cirurgia bariátrica voltam a ganhar, nos dois anos seguintes ao procedimento, pelo menos 20% do peso eliminado com a intervenção. Embora seja um número alto – o de reganho de peso de nove entre dez pacientes –, a situação é prevista, segundo especialistas.
Para o médico-cirurgião e especialista em tratamentos para a obesidade Dyker Paiva, o estudo da USP não chega a ser uma surpresa. “Sabemos também que em torno de 15% dos pacientes no terceiro ano após a cirurgia ganham de 15% a 20% do peso perdido. Temos de pensar que acontece uma acomodação do próprio corpo, faz parte do processo. Se perder 40 kg e depois ganhar 5 kg ou 6 kg, é normal, não é motivo de preocupação”, pondera. Entretanto, à medida que a pessoa começa a recuperar parte do peso, a luz de alerta deve ser ligada, e é preciso não só entender os motivos que levam a esse quadro, mas evitar que a situação se prolongue.
Um dos pontos cruciais levantados pelo estudo da USP é que o reganho de peso acontece quando os pacientes abandonam o tratamento psicológico. Não é mera coincidência. A decisão de passar pela cirurgia bariátrica deve estar aliada a um acompanhamento multidisciplinar antes e depois do procedimento. A pessoa que opta pela operação deve entender que psicólogos, nutricionistas, endocrinologistas, psiquiatras, cardiologistas e cirurgiões são aliados essenciais para a saúde física e mental.
“Esse acompanhamento é parte fundamental. Habitualmente, os pacientes abandonam o tratamento com psicólogo ou psiquiatra muito facilmente. Não há lua de mel depois da cirurgia, não é uma coisa simples, é uma mudança muito radical na vida do paciente. Mostro a eles que é uma barra pesada e que eles têm que abrir mão de um monte de coisa”, afirma Dyker Paiva.
A designer Karine Flávia, 43, chegou a pesar 128 kg e viu a cirurgia bariátrica como opção para melhorar sua saúde física e mental e passou pelo procedimento em outubro de 2022 – em setembro do ano anterior, porém, ela havia falado muito sobre o assunto com sua terapeuta e começado a se preparar para uma nova realidade. Quase um ano depois da operação, ela perdeu 42 kg, mas ainda pretende eliminar mais 10 kg, meta estipulada por sua nutricionista.
Karine mudou radicalmente a alimentação, atualmente composta basicamente por proteínas e verduras. Em casa, a designer tem até uma balança e um prato específico, de dimensões menores, para fazer suas refeições. Exercícios físicos – academia, caminhada e natação três vezes por semana – também entraram na ordem do dia.
“Fazer a cirurgia foi uma decisão muito bem tomada. Conversei muito com minha psicóloga e meu médico. Eu era viciada em Coca-Cola, tomava dois litros por dia. Tive muito medo de como seria, mas foi muito fácil, e só foi assim porque mantive o acompanhamento dos especialistas. Na minha terapia, lido muito com essa questão (da adaptação)”, ela afirma.
Psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental e mestre em relações interculturais, Renata Borja também salienta a importância do acompanhamento multidisciplinar: “Tenho pacientes que buscaram orientação antes da cirurgia e estão ótimos, mas também tenho uma série de pessoas que deixaram para depois da bariátrica. Num primeiro momento, elas emagreceram, mas depois voltaram a engordar ou criaram outro tipo de compulsão. O que tem que ser tratado é a compulsão”.
Há um tipo de operação que pode ser realizado quando a pessoa volta a ganhar peso. Ela é chamada de “cirurgia revisional”, feita quando há necessidade de modificar a técnica ou mesmo apurar alguma imperfeição. É recomendável evitar um segundo procedimento. “Se houve falha, muitas vezes não é na cirurgia. O paciente tem que olhar para si mesmo”, esclarece Paiva.
Obesidade: doença que não tem cura
Outra questão que vem à tona com a pesquisa da USP é que 22% dos entrevistados admitiram ter algum nível de compulsão alimentar leve ou grave. O distúrbio, inclusive, aparece como o transtorno mais associado ao reganho de peso. O cirurgião reforça: a cirurgia bariátrica reduz o peso e precisa ser assistida nos meses e anos seguintes por um corpo de especialistas, mas a técnica não é capaz de eliminar condições como a compulsão alimentar.
“O transtorno continua, a cirurgia coloca um freio, mostra que há um limite, mas não muda o transtorno em si. Se o paciente não cumpre esse limite, não busca orientação e não trata do distúrbio, ele começa a ganhar peso novamente. Aí vamos cair no número de 20% (das pessoas que fazem a bariátrica) que voltam a ter o peso que tinham antes da cirurgia. É um índice muito alto”, enfatiza Dyker Paiva.
Para o cirurgião, a pesquisa joga luz em mais um fator: a doença obesidade. No Brasil, pelo menos 60% da população acima de 18 anos sofre com sobrepeso ou obesidade, que traz riscos diversos à saúde e acaba desencadeando outras doenças. É comum que a pessoa obesa se torne diabética ou hipertensa e tenha problemas cardiovasculares e nas articulações por causa do excesso de peso, além de distúrbios de sono.
O especialista ressalta que o transtorno deve ser visto como uma enfermidade que não tem cura, mas controle: “Uma pesquisa como essa é interessante para mostrar a todos a necessidade de um controle contínuo. Obesidade é como diabetes, hipertensão: não tem cura, tem controle”.
FONTE: O Tempo.
















