O feminicídio no Brasil não é um fenômeno isolado nem imprevisível. Ele representa o desfecho mais extremo de uma violência que se constrói ao longo do tempo, dentro das relações afetivas, familiares e sociais. Mesmo com ampla divulgação na mídia, essas mortes costumam ser tratadas como tragédias individuais, quando, na verdade, revelam um problema social profundo. Mas qual é a causa do feminicídio no Brasil? Como a educação e a família ajudam na prevenção? Quais são as ajudas necessárias para enfrentar esse fenômeno? As respostas aparecem na entrevista com Elisabete Garcia Marangon, mestre em Psicologia Clínica e especialista em Terapia de Casal e Família.
Dados do Atlas da Violência 2025 indicam que muitas mulheres são assassinadas dentro de casa, em sua maioria por parceiros ou ex-parceiros, após um histórico de controle, ameaças e violência psicológica. Essas mortes não ocorrem de forma abrupta; costumam ser anunciadas. “Na minha prática clínica e na pesquisa que desenvolvi nos últimos anos, esse padrão se repete com firmeza: a violência raramente aparece de repente. Ela costuma ser construída no cotidiano das relações, muitas vezes normalizada antes de ser reconhecida como risco. Para compreender por que o feminicídio persiste no país, é preciso deslocar o olhar do ato final e observar os padrões de relação que se repetem ao longo do tempo”, explica a especialista Elisabete Garcia Marangon.
Entre as reflexões levantadas sobre o tema, destaca-se que a violência se repete quando padrões familiares não são rompidos. O feminicídio costuma ser o ponto final de uma violência que atravessa gerações. Em muitos contextos familiares, padrões de controle, silenciamento e hierarquias rígidas entre homens e mulheres são transmitidos como formas “normais” de convivência. Mulheres aprendem a suportar, homens aprendem a não demonstrar fragilidade, e conflitos são empurrados para o silêncio. Esses padrões não se mantêm apenas no âmbito privado: são reforçados por uma cultura que naturaliza valores machistas e pela ausência histórica de espaços educativos que promovam diálogo, escuta e comunicação não violenta. Quando essas transmissões não são reconhecidas e interrompidas, a violência muda de forma, mas continua encontrando espaço para se repetir. Romper ciclos de violência não significa culpar as famílias, mas criar condições para que elas possam fazer diferente do que aprenderam, com apoio, escuta e responsabilização compartilhada. Sem esse cuidado, padrões não elaborados seguem sendo transmitidos, atravessando gerações e se atualizando em novas formas de sofrimento.
A violência contra as mulheres não atinge todas da mesma maneira. Mulheres negras continuam sendo as principais vítimas de homicídio, reflexo do racismo estrutural e da desigualdade social. A realidade das mulheres trans é ainda mais grave: a expectativa de vida dessa população gira em torno de 35 anos, marcada por transfobia, exclusão familiar, dificuldades de acesso à educação, ao trabalho e aos serviços de saúde. Esses dados evidenciam que o feminicídio precisa ser entendido a partir de múltiplas camadas de vulnerabilidade. Considerar gênero sem levar em conta raça, classe social, território e acesso a políticas públicas é invisibilizar quem mais sofre e reforçar a ideia de que algumas vidas recebem menos proteção do que outras.
Educação é, no Brasil, uma estratégia central de prevenção. Falar em educação como prevenção ao feminicídio exige ir além de campanhas pontuais ou conteúdos isolados no currículo. Educação, nesse contexto, significa a forma como a sociedade ensina seus membros a lidar com emoções, frustrações, conflitos e diferenças ao longo da vida. Quando esse aprendizado falha, a violência passa a ocupar o espaço do diálogo. A escola é um espaço estratégico para romper ciclos de violência: nela crianças e adolescentes aprendem práticas de comunicação não violenta, educação emocional e reflexão crítica sobre papéis de gênero. Esses aprendizados ampliam repertórios relacionais e oferecem alternativas concretas ao uso do controle e da agressividade para resolver conflitos. Esse trabalho, no entanto, não pode ficar restrito apenas à escola ou à família. Quando o Estado investe em políticas públicas consistentes, como formação continuada de educadores, campanhas educativas permanentes e ações intersetoriais voltadas à cultura de paz, aumenta a capacidade coletiva de prevenir a violência. A ausência dessas políticas mantém a reprodução de valores machistas e naturaliza comportamentos que podem evoluir para agressões graves.
A família é também espaço de ruptura e proteção. Ela é um dos primeiros lugares onde aprendemos a nos relacionar. Quando há diálogo, reconhecimento emocional e possibilidade de elaboração dos conflitos, ela se torna um fator de proteção importante. Quando esses elementos estão ausentes, padrões violentos tendem a se repetir. Fortalecer as famílias não significa idealizá-las, mas oferecer suporte, acesso a serviços psicológicos e políticas públicas que reconheçam seu papel central na prevenção da violência. Famílias acompanhadas e apoiadas têm mais condições de interromper transmissões históricas de silenciamento, controle e desigualdade. O enfrentamento ao feminicídio exige mais do que punição: exige prevenção, educação e cuidado com as relações. Enquanto a sociedade reagir apenas após a violência alcançar seu ponto mais extremo, continuará lidando com perdas irreversíveis. Romper ciclos de violência é uma responsabilidade coletiva que começa na forma como educamos, nos comunicamos e cuidamos uns dos outros, dentro das famílias, nas escolas e nas políticas públicas que escolhemos sustentar.
Mais sobre o assunto. Elisabete Garcia Marangon, CRP 06/66237.
Fonte: G1 via Globo. Crédito da foto: Divulgação.
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Publicado em 3 de fevereiro de 2026.

















