Caso mais precoce de Alzheimer já registrado desafia o que a ciência sabe sobre a doença

Por Dentro De Tudo:

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Neurologistas de uma clínica de memória na China diagnosticaram, em 2022, um jovem de apenas 19 anos com Alzheimer provável, tornando este o caso mais precoce já documentado da doença. O que mais intriga a comunidade científica é o fato de o paciente não apresentar nenhuma das mutações genéticas conhecidas normalmente associadas ao Alzheimer de início extremamente precoce, o que levanta novas dúvidas sobre as origens e os mecanismos da enfermidade.

Os primeiros sinais surgiram aos 17 anos, quando o adolescente passou a enfrentar dificuldades de concentração na escola, problemas de leitura e lapsos cada vez mais frequentes de memória recente. Com o avanço do quadro, os sintomas se intensificaram a ponto de comprometer sua vida acadêmica e impedir a conclusão do ensino médio, embora ele ainda conseguisse manter certa autonomia no dia a dia.

Exames de imagem revelaram atrofia do hipocampo, região do cérebro fundamental para a formação e consolidação das memórias. Já a análise do líquido cefalorraquidiano apontou biomarcadores compatíveis com Alzheimer, a forma mais comum de demência. Esses achados reforçaram a suspeita clínica, mesmo diante da idade extremamente incomum para o diagnóstico.

Em geral, casos de Alzheimer antes dos 30 anos são classificados como Alzheimer familiar, uma condição hereditária ligada a mutações específicas em genes como PSEN1, PSEN2 ou APP. Quanto mais jovem o paciente, maior costuma ser a probabilidade de uma causa genética bem definida. No entanto, pesquisadores da Capital Medical University, em Pequim, realizaram uma análise genética ampla e não encontraram nenhuma dessas alterações conhecidas. Também não havia histórico familiar de demência nem indícios de infecções, traumas cranianos ou outras doenças neurológicas que pudessem explicar o declínio cognitivo.

Durante o acompanhamento clínico, os déficits se tornaram ainda mais evidentes em testes padronizados. Cerca de um ano após a primeira avaliação, o jovem apresentava prejuízos severos na memória imediata, na recordação após poucos minutos e também na evocação tardia. Seu desempenho global de memória ficou mais de 80% abaixo da média esperada para pessoas da mesma idade, afetando tarefas simples do cotidiano, como lembrar acontecimentos recentes ou localizar objetos pessoais.

O estudo, publicado no Journal of Alzheimer’s Disease, sugere que o Alzheimer pode seguir caminhos biológicos mais diversos do que se imaginava até agora. Segundo os autores, investigar casos tão precoces pode se tornar uma das frentes mais desafiadoras da pesquisa neurológica, justamente por expor lacunas fundamentais no entendimento atual sobre a origem e a progressão da doença.

Fonte da matéria: Época Negócios

Fonte da foto: Getty Images

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