Estupro coletivo contra menores: principais vítimas são meninas adolescentes

Por Dentro De Tudo:

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A reportagem aborda um caso de estupro coletivo ocorrido na noite de 31 de janeiro, no Rio de Janeiro, envolvendo uma adolescente de 17 anos. Quatro jovens são réus por estupro com concurso de pessoas, e a Justiça expediu mandados de prisão contra todos. Segundo a investigação, a vítima foi convidada por um ex-namorado para um encontro amoroso, mas acabou sendo violentada sexualmente por amigos deste rapaz. O exame de corpo de delito apontou lesões compatíveis com violência física e escoriação na região genital, além de sangue no canal vaginal.

O episódio gerou grande comoção social e revela uma das formas mais graves de violência sexual, reacendendo o debate sobre políticas de prevenção. A subnotificação dificulta a quantificação exata da incidência de estupro coletivo contra menores, mas estudos indicam que esse tipo de crime representa uma parcela significativa dos casos de violência sexual grave. Em âmbito mundial, estima-se que mais de 370 milhões de meninas e mulheres vivas tenham sido vítimas de estupro ou abuso sexual antes dos 18 anos, representando uma em cada oito. No Brasil, pesquisas apontam que a subnotificação é alarmante, com a estimativa de que apenas 7,5% dos casos sejam denunciados. Um estudo de 2025 publicado na revista The Lancet indicou que 17,7% das mulheres e 12,5% dos homens brasileiros com 20 anos ou mais foram vítimas de violência sexual na infância ou adolescência.

Conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, 71% dos casos de estupro em 2023 ocorreram contra vulneráveis (menores de 14 anos ou incapazes de consentir). O Brasil registrou 80.605 casos de estupro naquele ano, sendo 57.329 estupros de vulnerável. As maiores taxas de incidência concentram-se na região Norte, com Acre (69,37 por 100 mil habitantes), Rondônia (68,55) e Roraima (60,69). Em termos de números absolutos, São Paulo lidera com 11.330 casos, seguido pelo Paraná, com 5.272. Entre 2017 e 2020, houve 179.277 casos de estupro ou estupro de vulnerável contra vítimas com até 19 anos, o que representa uma média anual de 45 mil ocorrências; crianças de até 10 anos responderam por um terço desse total, aproximadamente 62 mil casos.

Pesquisas indicam que meninas de 12 a 17 anos (idade média de 14) são as maiores vítimas nesse tipo de crime. Globalmente, 89% das vítimas de estupro são mulheres, com 81% delas entre 12 e 17 anos. No Brasil, 88% das vítimas de violência sexual são meninas, com pico aos 13 anos; os meninos costumam ser vítimas entre 3 e 9 anos. O psiquiatra Danilo Baltieri, da Faculdade de Medicina do ABC, enfatiza que o impacto sobre crianças e adolescentes é ainda mais devastador, atingindo o desenvolvimento psicológico, emocional e físico, e que esse tipo de violência pode perpetuar ciclos de trauma por toda a vida.

Baltieri também ressalta que o estupro coletivo, embora menos frequente que assaltos perpetrados por um único agressor, está associado a riscos aumentados de infecções sexualmente transmissíveis e de problemas de saúde mental. Dados de uma pesquisa de 2014 indicam que aproximadamente 30% das vítimas sofrem lacerações himenais e 38% apresentam ISTs, ao comparar casos de estupro por múltiplos agressores com casos de agressões cometidas por apenas um agressor.

No âmbito da África do Sul, a violência sexual é endêmica, com 8,9% dos homens adultos admitindo envolvimento em estupro coletivo. Em relação à relação entre agressores e vítimas de estupro coletivo contra menores, a proximidade é comum: 93% das vítimas com menos de 18 anos têm algum tipo de relação com o agressor, sendo 59% conhecidos ocasionais, 34% familiares e apenas 7% estranhos. Entre casos com múltiplos perpetradores, 27,7% envolvem estranhos, 28,3% conhecidos ou encontros casuais, 10,3% parentes e 27,7% múltiplos tipos. No Brasil, 86% dos autores são conhecidos, com 67% dos casos ocorrendo na residência da vítima, segundo a UNICEF Brasil.

A investigação de estupro coletivo contra menores enfrenta desafios estruturais, psicológicos e sociais, contribuindo para a subnotificação: apenas cerca de 30% dos casos de violência sexual contra crianças são denunciados à polícia. Motivos incluem medo de represálias, vergonha e falta de reconhecimento como vítima. O médico aponta a necessidade de reformas urgentes em políticas públicas, educação e justiça para romper ciclos de violência e proteger as vítimas, especialmente meninas em situações de vulnerabilidade em contextos de proximidade.

Sobre o perfil dos estupradores, Baltieri, com três décadas de experiência no atendimento a agressores sexuais, afirma que é comum observar histórico de comportamentos violentos. Em relação aos casos de estupro coletivo, ele explica que não há divisão clara entre submissão, humilhação e prazer sexual. Segundo ele, muitos casos envolvem uma figura de liderança dentro do grupo, com traços da tríade negra (narcisismo, maquiavelismo e anti-socialidade). A tríade negra aparece frequentemente em pacientes com histórico de participação em delitos desse tipo.

O caso de Copacabana envolve a vítima convidada por um ex-namorado para ir ao apartamento de um amigo dele. No local, ela foi levada a um quarto, e, enquanto mantinha relação com o ex, outros quatro rapazes entraram no cômodo. A vítima relatou que, após insistência do adolescente, concordou que os amigos permanecessem no quarto, desde que não a tocassem, mas os rapazes a forçaram a praticar sexo oral e realizaram penetração por todos os lados. Ela relatou agressões físicas, incluindo socos e chutes. O exame de corpo de delito verificou lesões físicas, perícia indicou infiltrado hemorrágico e escoriação na região genital, além de sangue no canal vaginal, com materiais coletados para DNA.

Na manhã do dia seguinte, o foragido Mattheus Verissimo Zoel Martins, de 19 anos, se entrega à polícia. Outros três investigados continuavam foragidos até a última atualização: Bruno Felipe dos Santos Allegretti, 18 anos; João Gabriel Xavier Bertho, 19 anos; e Vitor Hugo Oliveira Simonin, 18 anos. A Justiça do Rio de Janeiro já havia negado habeas corpus aos foragidos. O adolescente que teria convidado a vítima também é investigado por ato infracional análogo ao crime, com o procedimento desmembrado para a Vara da Infância e Juventude, que ainda não decidiu pela apreensão ou não; a identidade dele não será divulgada por envolver menor de idade.

Dois dos cinco envolvidos em estupro coletivo também são acusados de outro caso semelhante, no qual a vítima tinha 14 anos.

Credito da foto: Juan Silva / Arte g1
Fonte: G1 – Justiça nega habeas corpus a 3 foragidos por estupro coletivo. Disponível em: https://ift.tt/FqxLoWf

Final da matéria: a reportagem cita crédito da foto e a fonte ao final, conforme orientação.

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