Trinta anos após o episódio que colocou Varginha, em Minas Gerais, no centro de um dos casos ufológicos mais conhecidos do mundo, a história da suposta aparição do extraterrestre continua sem um ponto final — e talvez nunca tenha uma conclusão definitiva. Não se trata apenas de saber se uma criatura de outros planos esteve ou não na cidade em janeiro de 1996. O que mantém essa história viva é o impacto que ela deixou: nas pessoas, na memória coletiva, nas versões que resistem ao tempo e no silêncio que nunca foi totalmente rompido. Este especial do g1 reconstrói os acontecimentos, cruza relatos, documentos, ciência e lacunas oficiais para entender por que, três décadas depois, o Caso Varginha ainda não terminou.
Janeiro de 1996. Em poucos dias, Varginha deixou de ser apenas mais uma cidade do interior de Minas Gerais para se tornar um nome conhecido no Brasil e no mundo. Relatos de avistamentos estranhos, movimentação militar incomum, versões contraditórias e mortes cercadas de dúvidas alimentaram uma narrativa que atravessou gerações. Desde então, livros foram escritos, documentários produzidos, investigações reabertas e novas testemunhas surgiram. Nenhuma versão conseguiu, de fato, encerrar o caso. Trinta anos depois, a cidade seguiu em frente. A história, não.
Os locais associados ao caso continuam existindo. Ruas, terrenos e prédios que um dia foram apontados como cenário de algo extraordinário hoje fazem parte da rotina da cidade. Mas, para quem viveu aqueles dias — ou cresceu ouvindo falar deles —, esses espaços carregam algo além da paisagem urbana. Na comparação entre imagens de 1996 e registros atuais, o tempo mostra o que mudou fisicamente e o que permanece intocado: a curiosidade, o debate e a sensação de que algo ficou sem explicação.
O terreno no bairro Jardim Andere, em Varginha, onde três jovens afirmaram ter visto uma criatura de aparência não humana em janeiro de 1996, tornou-se o ponto inicial do Caso ET e até hoje é citado como o cenário do primeiro relato. O Hospital Regional de Varginha entrou para a história do caso após relatos de movimentação incomum de militares e da suposta passagem de uma criatura por unidades de saúde da cidade; as versões nunca foram confirmadas oficialmente. O Hospital Humanitas, em Varginha, é citado em relatos que apontam atendimento médico e movimentação atípica de profissionais e militares nos dias seguintes à suposta aparição, versões que nunca foram confirmadas oficialmente e seguem entre os pontos sem explicação do caso. A Escola de Sargentos das Armas, em Três Corações, é mencionada por ufólogos e testemunhas como destino de veículos militares vistos em Varginha nos dias seguintes aos relatos. O Exército sempre negou qualquer ligação da unidade com o caso. O zoológico municipal é citado em versões que apontam a suposta presença de uma criatura semelhante à descrita pelas jovens, o que reforçou especulações e divergências entre testemunhos ao longo dos anos.
Houve relatos de avistamentos incomuns em janeiro de 1996. Moradores relataram avistamentos classificados como incomuns, com o principal partindo das três jovens que disseram ter visto uma criatura de aparência não humana e diferente de qualquer animal conhecido. Outros relatos descreveram luzes estranhas no céu, deslocamentos rápidos e silenciosos e a suposta queda de um objeto. A presença de militares na cidade foi registrada: houve, por parte da população, a percepção de intensa movimentação de caminhões do Exército nos hospitais da cidade e viaturas do Corpo de Bombeiros após a suposta aparição. Há relatos de homens armados que impediam a passagem de curiosos em determinados pontos. As autoridades afirmaram que se tratava apenas de atividades rotineiras. O episódio ganhou repercussão nacional e internacional, especialmente após uma matéria no Fantástico, na Rede Globo, levando o assunto a despontar em diversos veículos, nacionais e estrangeiros, como o Wall Street Journal, impulsionando-o como um dos casos ufológicos mais conhecidos do Brasil no exterior. O episódio também transformou a cidade de Varginha em uma identidade local, com elementos incorporados à paisagem urbana, esculturas temáticas e até a própria caixa d’água recebendo a ideia de um “disco voador”, contribuindo para o turismo na região.
As descrições da suposta criatura variaram entre testemunhas. A primeira descrição do que teria sido visto pelas três jovens falava de uma criatura com olhos grandes e avermelhados, cabeça volumosa com três protuberâncias, pele escura e oleosa; outras descrições variaram na cor e na estatura. Um relato apontou que uma testemunha teria visto, no zoológico da cidade, uma criatura idêntica à avistada, mas com uma espécie de capacete na cabeça. Em 2007, a criatura ganhou a cor verde em um personagem criado pelo cartunista Márcio Baraldi para a revista UFO. Com o passar do tempo, as versões mudaram: o documentário O Mistério de Varginha, produzido pela EPTV em parceria com a Rede Globo para marcar os 30 anos do caso, mostra depoimentos que se alteraram ao longo dos anos. Entre quem inicialmente sustentou versões, houve quem reconhecesse ter visto gravações ou a própria criatura em hospital, quem admitiu ter mentido sobre a atuação das forças armadas, quem disse ter se tratado de uma farsa, e ufólogos que admitiram a ausência de provas conclusivas.
Não há confirmação oficial das razões exatas da movimentação militar percebida pela população. Enquanto documentos oficiais negam qualquer operação destinada à captura de seres desconhecidos e descrevem movimentos de rotina, ufólogos defendem que a corporação guarda segredo sobre o que realmente ocorreu. O sigilo institucional e a ausência de explicações claras alimentam especulações e reforçam o caráter enigmático do caso.
Trinta anos depois, diferentes vozes ajudam a entender por que o Caso ET de Varginha continua aberto. São depoimentos de quem apurou, questionou, acreditou, duvidou ou conviveu com a história desde 1996. O g1 também procurou outros profissionais diretamente envolvidos com o caso, além de pesquisadores e ufólogos que acompanharam as investigações ao longo dos anos. Parte dos convidados optou por não participar do especial ou não respondeu aos contatos da reportagem.
Foto: Júlia Reis/g1
Fonte: g1 Sul de Minas – portal de notícias do grupo Globo


















