Reiner Jesus Martins, de 20 anos, conquistou há pouco mais de um mês a carteira de habilitação após encontrar, em Pará de Minas (MG), um carro adaptado às suas necessidades. Morador de Lavras (MG), onde cursa agronomia, o jovem nasceu sem os dois braços e dirige utilizando os pés. Para obter a CNH, ele precisou passar por avaliação de uma junta médica do Detran, que definiu as condições necessárias para conduzir o veículo.
As aulas práticas foram feitas com a adaptação indicada no laudo médico. Antes de começar, Reiner conta que tinha medo de não conseguir dirigir. A insegurança, no entanto, deu lugar à empolgação depois da primeira aula. “Na hora que eu comecei, que foi a primeira aula, eu já fiquei numa alegria imensa de estar nesse processo”, afirma.
A habilitação é mais uma conquista no processo de construção da autonomia de Reiner, que começou ainda na infância e inclui estudar, morar sozinho e realizar as atividades do cotidiano de forma independente.
Processo da CNH
O processo para obter a carteira começou no ano anterior. Por ser uma pessoa com deficiência, Reiner precisou passar por uma avaliação de uma junta médica do Detran, que definiu as condições e adaptações necessárias para que ele pudesse dirigir. Segundo ele, uma das dificuldades foi encontrar uma autoescola que tivesse um veículo compatível com as adaptações indicadas. Depois de procurar, encontrou a estrutura necessária em Pará de Minas. A primeira aula foi um momento de teste, em que precisou entender como executar os movimentos necessários para conduzir o veículo utilizando as adaptações. Depois das aulas práticas e da prova, a aprovação veio no dia 5 de agosto. “Logo depois que acabou o exame, que eu recebi o papelzinho escrito aprovado, eu até chorei de emoção”, relembra.
Apesar da conquista, Reiner acredita que o processo para que pessoas com deficiência consigam tirar a CNH ainda pode ser aprimorado. “Acho que poderia melhorar principalmente na acessibilidade, na informação e na preparação dos profissionais. Um processo mais simples, rápido, de fácil acesso, com mais preparo dos profissionais, facilitaria para que mais pessoas com deficiência tivessem essa oportunidade e conquistassem mais autonomia”, afirma.
Infância e construção da autonomia
Natural de Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Reiner conta que a mãe descobriu durante a gravidez que ele nasceria sem os braços. Desde os primeiros meses de vida, ele passou por terapias e acompanhamentos para desenvolver habilidades e encontrar maneiras próprias de realizar as atividades do cotidiano. Ele foi atendido por instituições como a AACD e APAEs de diferentes cidades, além de terapia ocupacional, equoterapia e hidroterapia.
“Hoje, para mim, meus pés são como as mãos”, afirma. A família buscava garantir que ele tivesse convivência com outras crianças, participasse das atividades escolares e desenvolvesse diferentes aspectos da vida. A independência foi estimulada desde a infância pela mãe.
Lidando com o preconceito
Reiner relata situações de capacitismo ao longo da vida, incluindo comentários de crianças. “Eu provo para mim mesmo que eu consigo e, depois, eu vou e provo para as outras pessoas”, afirma. Ele reconhece que há momentos em que gostaria de ter os braços, mas valoriza o que consegue fazer e o apoio da família.
Na universidade, ele estuda agronomia na UFLA, no segundo período. O curso exige poucas adaptações, como cadeiras apropriadas para escrever sem depender de monitor. Em atividades práticas, algumas tarefas apresentam limitações, mas ele acompanha, observa e busca entender para aplicar o conhecimento de outras formas.
Rotina nas redes sociais
Reiner passou a compartilhar a rotina nas redes sociais, criando perfil no TikTok para mostrar como realiza atividades do cotidiano usando os pés. Os vídeos alcançaram milhões de pessoas, gerando mensagens de motivação para muitas pessoas.
Para o jovem, o mais importante é ser reconhecido pelo que faz e pela vida que constrói, não apenas pela deficiência. Ele defende que pessoas com deficiência não devem ser tratadas como incapazes ou merecedoras de pena, e reforça a importância de uma sociedade mais preparada para conviver com as diferenças.
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Texto: via g1
Foto: g1














