O planeta está consumindo cada vez mais água doce em meio às mudanças climáticas, gerando o que pesquisadores descrevem como falência hídrica. Essa condição aparece quando a demanda supera a capacidade de reposição da natureza e os ativos naturais que armazenam e filtram a água — como aquíferos e zonas úmidas — sofrem danos irreversíveis. Um estudo conduzido pelo Instituto da Universidade das Nações Unidas para a Água, o Meio Ambiente e a Saúde aponta que o mundo já ultrapassou o estágio de crises hídricas temporárias: muitos sistemas não retornam às condições naturais históricas e esgotam-se progressivamente.
Cerca de quatro bilhões de pessoas — quase metade da população global — vivem sob escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano, sem água suficiente para atender a todas as necessidades. As consequências vão desde reservatórios secos e cidades afundando até perdas de safras, racionamento de água, incêndios florestais e tempestades de areia cada vez mais frequentes. Sinais de falência hídrica aparecem em vários cantos do mundo, de Teerã, cuja crise de água esgota os reservatórios da capital iraniana e alimenta tensões políticas, aos Estados Unidos, onde a demanda por água superou a oferta do Rio Colorado, fonte crucial para sete estados.
A falência hídrica não é apenas uma metáfora; é uma condição crônica que se instala quando a água extraída excede o que a natureza pode repor de maneira confiável e quando os danos aos ativos naturais que armazenam água tornam-se difíceis de reverter. O relatório Global Water Bankruptcy, publicado em 20 de janeiro de 2026, documenta que esse quadro está se tornando comum. A extração de água subterrânea tem causado subsidência em várias regiões, com impactos significativos em áreas urbanas onde vivem cerca de 2 bilhões de pessoas. Entre os exemplos mais conhecidos na Ásia estão Jacarta, Bangkok e Ho Chi Minh.
Em uma imagem capturada próximo ao rio Madeira, ribeirinhos carregam galões de água atravessando bancos de areia até a comunidade Paraizinho, em Humaitá, no Amazonas, em meio à pior seca da história da região. Foto de Bruno Kelly/Reuters. Esse retrato ilustra a realidade em muitos lugares: a escassez de água atinge comunidades inteiras, aumenta o custo da produção agrícola e agrava tensões locais.
Como é a falência hídrica na vida real
Na comparação com a falência financeira, os primeiros sinais muitas vezes parecem administráveis — atrasos de pagamentos, dívidas crescentes e venda de bens. Na falência hídrica não é diferente: inicialmente pode haver extração de água subterrânea durante anos de seca, uso de bombas maiores e poços mais profundos, transferência de água entre bacias, drenagem de pântanos e readequação de rios para favorecer áreas urbanas e agrícolas. Com o tempo, porém, surgem custos ocultos: lagos encolhem ano após ano, poços tornam-se cada vez mais profundos, rios que antes fluíam o ano todo tornam-se sazonais e a água salgada pode invadir aquíferos, piorando a qualidade. Um sintoma típico é a subsidência, quando o solo se compacta pela extração excessiva de água subterrânea; na Cidade do México o solo chega a afundar cerca de 25 centímetros por ano.
O relatório Global Water Bankruptcy aponta que a prática de extrair água subterrânea contribuiu para o afundamento de mais de 6 milhões de quilômetros quadrados no mundo, afetando áreas urbanas em que vivem cerca de 2 bilhões de pessoas. Além de preservar água, zonas úmidas exercem papel crucial na retenção de água, amortecimento de inundações e suporte à biodiversidade. Entre os impactos mais preocupantes estão a diminuição da disponibilidade de água para consumo humano, seca prolongada, redução da produção agrícola, insegurança alimentar e tensões políticas.
A agricultura continua sendo a maior consumidora de água do planeta, respondendo por cerca de 70% do uso global de água doce. Quando as regiões entram em estresse hídrico, a produção agrícola fica mais cara e menos estável, desempregos aparecem, conflitos surgem e a segurança nacional pode ficar ameaçada. Aproximadamente 3 bilhões de pessoas, bem como mais da metade da produção global de alimentos, estão concentradas em áreas onde a capacidade de armazenamento de água já está reduzida. Mais de 1,7 milhão de quilômetros quadrados de terras agrícolas irrigadas estão sob estresse hídrico alto ou muito alto, o que coloca em risco o abastecimento de alimentos em todo o mundo. As secas passam a ter maior duração, frequência e intensidade, acompanhadas pelo aumento das temperaturas globais. Entre 2022 e 2023, mais de 1,8 bilhão de pessoas vivenciaram condições de seca em diferentes momentos.
Existem consequências diretas para o cotidiano: preços de alimentos mais elevados, menor disponibilidade de energia hidrelétrica, riscos à saúde, desemprego, deslocamentos forçados e novas tensões sociais e políticas.
O que pode ser feito?
Segundo o estudo, a resposta à falência hídrica exige transformações profundas na gestão de água, iguais às mudanças propostas para enfrentar a falência financeira. Dentre as diretrizes sugeridas estão reconhecer que a situação está no vermelho e estabelecer limites de uso compatíveis com a água realmente disponível, em vez de explorar recursos até o colapso. Proteger o capital natural, incluindo zonas úmidas, rios, solos e a recarga de aquíferos, não é apenas uma ação ambiental, mas essencial para manter o abastecimento de água. Utilizar menos água deve ocorrer de forma justa, com proteção social e apoio a agricultores para transição para culturas e sistemas menos dependentes de água, bem como investimentos em eficiência. Medir o que importa é fundamental; o sensoriamento remoto por satélite pode ajudar no monitoramento de aquíferos, recarga de lençóis freáticos, recuo de geleiras e qualidade da água, fornecendo alertas precoces. Por fim, é necessário planejar o uso reduzido de água, reconhecendo que a mudança envolve também uma mudança cultural e econômica, com redesenho de cidades, cadeias de produção de alimentos e modelos de economia para operar dentro dos novos limites.
Kaveh Madani não presta consultoria, não possui ações nem recebe financiamento de empresas que possam se beneficiar com a publicação deste artigo, e declarou não ter vínculos relevantes além de seu cargo acadêmico.
Foto: Bruno Kelly/Reuters, Humaitá, Amazonas. Crédito da foto: Bruno Kelly/Reuters
Fonte: G1, via Globo, publicada originalmente em 25 de janeiro de 2026. https://g1.globo.com/



















