A nova regulamentação da Anvisa que autoriza o cultivo de cannabis medicinal por empresas, universidades e associações de pacientes deve ter impacto direto na redução de preços e no aumento da segurança dos tratamentos, avaliam especialistas ouvidos pelo g1. Hoje, muitos pacientes ainda enfrentam custos elevados ou recorrem ao mercado ilegal diante da falta de alternativas acessíveis.
Segundo o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, professor da Unifesp, a mudança representa um avanço para a saúde pública, ao reduzir riscos associados ao uso não controlado da planta. Ele destaca que o uso terapêutico regulado difere do consumo informal principalmente pela padronização da dosagem e da composição, especialmente no caso do tetrahidrocanabinol (THC), que pode apresentar riscos em altas concentrações.
A cannabis possui diversos canabinoides, com destaque para o canabidiol (CBD), que não tem efeito psicoativo e é amplamente utilizado por suas propriedades anticonvulsivantes, analgésicas e relaxantes. No uso medicinal, essas substâncias passam por processos laboratoriais e são administradas em óleos, comprimidos e outras formulações farmacêuticas — modelo que a Anvisa busca consolidar com as novas regras de cultivo no país.
Além do impacto clínico, especialistas apontam que a produção nacional pode reduzir significativamente os custos dos medicamentos, hoje majoritariamente importados. Dartiu afirma que tratamentos que chegam a custar entre R$ 3 mil e R$ 5 mil por mês tendem a ficar mais baratos. Essa perspectiva reacende o debate sobre a incorporação da cannabis medicinal ao Sistema Único de Saúde, hoje restrita a decisões judiciais ou programas locais, como o de São Paulo.
Do ponto de vista científico, a regulamentação cria um ambiente mais previsível para pesquisas. Para o neurologista Renato Anghinah, professor da USP e da Faculdade de Medicina do ABC, regras claras reduzem entraves burocráticos, facilitam o uso de matéria-prima nacional e melhoram a padronização dos estudos. O limite de até 0,3% de THC vale apenas para a produção comercial; pesquisas científicas podem utilizar concentrações maiores, desde que cumpram exigências específicas de segurança.
Especialistas também comparam o novo modelo brasileiro a sistemas já consolidados em países como Canadá e Alemanha, que adotam licenças, rastreabilidade e controle sanitário rigoroso. Embora o Brasil ainda esteja em estágio menos avançado, a avaliação é de que a nova norma aproxima o país de padrões internacionais e pode impulsionar pesquisa, indústria nacional e, no futuro, o acesso mais amplo dos pacientes à cannabis medicinal.
Fonte do texto: g1
Fonte da foto: Reprodução/Unsplash
















