A insegurança alimentar tem se caracterizado como um fator de risco para obesidade entre as mulheres, enquanto o mesmo não ocorre entre os homens. O dado foi descrito em artigo do GISAN, grupo vinculado ao Instituto de Nutrição Josué de Castro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O estudo destaca que a desigualdade de gênero amplia os efeitos da insegurança alimentar em famílias chefiadas por mulheres, afetando qualidade e quantidade da alimentação.
Dados inéditos vêm do Inquérito sobre Insegurança Alimentar no Município do Rio de Janeiro, o Mapa da Fome da Cidade do Rio de Janeiro. Na pesquisa sobre obesidade, foram incluídos apenas chefes de família adultos entre 20 e 59 anos, excluídas gestantes, resultando em uma amostra de 1.026 indivíduos. As entrevistas, presenciais, foram realizadas por entrevistadores treinados, com perguntas dirigidas à pessoa de referência na família responsável pela compra e preparo das refeições. Foram coletados indicadores de insegurança alimentar, características sociodemográficas, peso e estatura para classificação do estado nutricional.
A Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) classificou a situação dos domicílios quanto à segurança alimentar e o nível de gravidade da insegurança (leve, moderada e grave). A EBIA, com 14 perguntas dicotômicas, é validada no país desde 2004 para uso em estudos populacionais.
Questão de gênero
Os resultados mostram prevalências significativamente maiores de sobrepeso (38,7%) e obesidade (32,3%) entre mulheres de famílias com formas mais severas de insegurança alimentar. Após ajustes estatísticos, a obesidade feminina ficou quase três vezes maior entre mulheres com algum nível de insegurança alimentar. O sobrepeso também se associou a mulheres em situações de maior severidade da insegurança, com incremento de 76% em relação àquelas em segurança alimentar. Entre homens, a relação não foi estatisticamente significativa, indicando maior vulnerabilidade entre as mulheres.
Contexto nacional e local
Segundo o IBGE, em 2023, 21,6 milhões de brasileiros viviam algum grau de insegurança alimentar e 3,2 milhões estavam em fome. Embora haja melhora em relação a anos anteriores, a insegurança alimentar ainda incide de forma desproporcional em domicílios chefiados por mulheres, possivelmente devido a fatores estruturais como acesso a recursos produtivos e sobrecarga de responsabilidades domésticas.
Regionais e o caso do Rio de Janeiro
No Sudeste persistem desigualdades sociais, especialmente nos grandes centros urbanos. O Rio de Janeiro destaca-se economicamente, com grande PIB, mas continua entre os municípios mais desiguais do país. Em 2024, a taxa de fome no município superou estimativas nacionais e estaduais, evidenciando uma realidade local ainda mais crítica para famílias chefiadas por mulheres. A análise territorial permite captar nuances locais das iniquidades em saúde e orientar políticas públicas mais equitativas.
Perspectivas e financiamento
A pesquisa enfatiza a necessidade de aprofundar a compreensão da inter-relação entre insegurança alimentar e obesidade, bem como o desenvolvimento de estratégias de longo prazo para mitigar essa contradição. O estudo teve apoio financeiro da Câmara Municipal do Rio de Janeiro e da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro. As pesquisadoras envolvidas são docentes e pesquisadoras da UFRJ, com vínculos institucionais e reconhecimentos na área.
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Texto: via g1
Foto: g1













