Um relatório da Corregedoria da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), ao qual o g1 teve acesso, aponta que armas de fogo extraviadas da 1ª Delegacia do Barreiro, em Belo Horizonte, voltaram a circular e foram apreendidas em ocorrências criminosas na capital, na Região Metropolitana, no interior do estado e até fora de Minas Gerais. O documento faz parte do processo criminal contra a ex-servidora da PCMG, Vanessa de Lima Figueiredo, investigada por desviar mais de 200 armas apreendidas. O g1 tenta contato com a defesa de Vanessa.
O relatório detalha o reaparecimento de armamentos que deveriam estar sob custódia da polícia e reforça as suspeitas de um esquema de desvio dentro da própria unidade. Parte do armamento foi vendido a organizações criminosas, como o Terceiro Comando Puro (TCP) e outros grupos que atuam na Grande Belo Horizonte. A apuração ocorreu a partir do cruzamento de dados entre registros antigos de apreensão e sistemas policiais, como REDS e INFOSEG, utilizando principalmente os números de série das armas. A análise identificou que diversos armamentos reapareceram anos depois de terem sido apreendidos.
A Corregedoria também aponta falhas no controle e na rastreabilidade das armas, com registros inconsistentes e casos de numeração raspada ou incompleta, dificultando a identificação precisa dos armamentos.
Casos que mais chamaram a atenção incluem uma pistola 9mm apreendida inicialmente em 2020 em Esmeraldas e que voltou a ser localizada em pelo menos quatro ocorrências entre 2023 e 2024, em diferentes bairros de Belo Horizonte. Para a Corregedoria, o histórico indica “quebra de custódia estatal”, já que o armamento circulou entre criminosos após ter sido recolhido pela polícia.
As investigações sobre o desvio começaram justamente após uma dessas reaparições: uma arma que já havia sido apreendida foi encontrada novamente com um suspeito. A partir daí, foi identificado o desaparecimento de cerca de 220 armas que estavam sob guarda da delegacia. Segundo o inquérito, algumas dessas armas já foram recuperadas em ocorrências relacionadas a crimes como tráfico de drogas, porte ilegal e lesão corporal. O documento aponta ainda um prejuízo superior a 1,7 milhão de reais aos cofres públicos.
Locais onde as armas foram reencontradas
O relatório mostra que várias armas reapareceram em cidades da Região Metropolitana, bem como fora de Minas Gerais. Entre os locais listados estão Belo Horizonte, Betim, Contagem, Santa Luzia, Ibirité, Ribeirão das Neves, Juatuba e Manhuaçu (Zona da Mata). Em outros estados, como São Paulo, houve consultas ao INFOSEG.
Depoimento de colegas de trabalho da ex-servidora
O g1 teve acesso a parte do depoimento de colegas de Vanessa de Lima Figueiredo. Um colega afirma que, a partir de 2023, Vanessa passou a ter um padrão de vida incompatível com a renda, incluindo viagens internacionais, compra de carro e apartamento, além de uma cirurgia plástica de alto custo, sem explicar a origem dos recursos. O depoente também descreveu comportamentos suspeitos no ambiente de trabalho, como Vanessa permanecer sozinha na unidade em certos momentos e comentários de que entrava sem objetos e saía com bolsas. Durante a apuração, a polícia identificou extravio de materiais e localizou, em um armário trancado dentro da sala de apreensões, invólucros violados e escondidos, o que reforçou a suspeita de manipulação e desvio de itens sob custódia.
Relembre o caso da ex-servidora
Servidora da Polícia Civil é denunciada por desviar 200 armas de delegacia
A investigação teve início após a apreensão de uma arma que deveria estar sob custódia, levando à identificação do desaparecimento de cerca de 220 armamentos da 1ª Delegacia do Barreiro, em Belo Horizonte. A principal investigada é a servidora Vanessa de Lima Figueiredo, de 44 anos, presa em 2025. Conforme a apuração, parte das armas foi vendida a facções criminosas, e algumas já foram recuperadas em ocorrências ligadas a crimes como tráfico e porte ilegal. Ela foi afastada do cargo, usa tornozeleira eletrônica e está proibida de deixar o país. A defesa nega irregularidades e afirma que não há provas concretas contra a servidora.
O Ministério Público de Minas Gerais denunciou Vanessa de Lima Figueiredo por peculato, acusando-a de desviar armas, dinheiro e outros objetos da 1ª Delegacia do Barreiro, em Belo Horizonte. A denúncia foi aceita pela Justiça em 17 de dezembro, tornando-a ré em processo criminal, com pena que pode chegar a 12 anos de prisão.
Fonte: g1
Crédito da foto: Reprodução
Imagem publicada originalmente com a reportagem sobre Vanessa de Lima Figueiredo.
Fonte: g1.globo.com
Data: 25 de março de 2026
















