Três anos após tragédia, uso de antidepressivos e tentativas de suicídio disparam em Brumadinho

Disparadas do uso de antidepressivo, violência doméstica e tentativa de suicídio também são tragédias enfrentadas diariamente pela população de Brumadinho, na Grande BH, após o rompimento da barragem da Vale. O desastre que deixou 270 mortes e um rastro de destruição completou hoje três anos, mas o acolhimento aos moradores vai durar mais.

Levantamento feito pela prefeitura mostrou que o consumo da sertralina, remédio controlado para o tratamento da depressão, cresceu 103% desde 2018 na rede pública.

Patrícia Mara Anízio, de 50 anos, é mãe de Letícia Anizio, enfermeira que trabalhava na Vale e uma das vítimas da mina Córrego do Feijão. Com a perda da filha, a agente aeroportuária desenvolveu depressão, ansiedade e síndrome do pânico. Depois de seis meses afastada do trabalho, acabou demitida. 

“Quando voltei não tinha condições psicológicas de continuar no aeroporto, pois foi onde recebi a notícia. Ficava uma hora bem e, de repente, pensava que o aeroporto ia cair na minha cabeça por conta da cena de destruição, me dava gatilhos”, conta Patrícia.

Hoje, ela toma seis remédios por dia e recebe auxílio-saúde da mineradora. Outras duas filhas também foram diagnosticadas com transtornos psicológicos.

Até quem não tem ligação direta com o desastre relata piora na condição de saúde. Moradora de Brumadinho, Pabrine Katielle Lage, de 24 anos, conta que não perdeu parentes nem amigos, mas desenvolveu sequelas pelo medo de um novo rompimento de barragem. “Aquela sirene… sinto até falta de ar”. Ela buscou tratamento médico há três meses para tentar se livrar dos traumas.

O NAAÇÃO oferece acolhimentos psicológicos gratuitos e on-line. Os atendimentos são feitos por voluntários. Para participar ou receber apoio entre em contato pelo whatsaap (31) 99197-3535

A jovem é atendida por um projeto social desenvolvido pela ONG NaAção, que presta assistência a quem tem distúrbios psíquicos. Coordenadora da equipe de psicologia do grupo, Nayara Silva afirma que grande parte dos casos é de pessoas com quadros de depressão e ansiedade. A maioria é formada por mulheres de 30 a 45 anos. No entanto, idosos e até adolescentes também são atendidos.

Uma das preocupações é com relação a bebidas alcoólicas e drogas. Segundo o secretário municipal de saúde, Eduardo Calegari o consumo cresceu consideravelmente em 2021. 

O gestor ainda destacou o registro de 146 tentativas de suicídio, número cinco vezes maior que antes da tragédia – foram 27 em 2018. Calegari disse que assistência à saúde mental deverá continuar por anos. “Não é algo que se consegue resolver em pouco tempo. Vai ser a longo prazo, infelizmente”, afirmou. 

Por nota, a Vale afirmou que o Programa Referência da Família foi criado para prestar assistência psicossocial à população local. Cerca de 93% das famílias elegíveis aderiram ao programa até o momento, o que corresponde a aproximadamente 3,3 mil pessoas atendidas. Os valores destinados a atendimentos e tratamentos médicos e psicossociais foram de R$ 85 milhões. 

“O montante se soma aos cerca de R$ 32 milhões repassados à Prefeitura de Brumadinho, por meio de um acordo de cooperação, para a ampliação da assistência de saúde e psicossocial no município”, informou a Vale.

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