A infância é uma fase marcada por descobertas, brincadeiras e aprendizados. No entanto, também é um período vulnerável em que as crianças podem vivenciar sofrimentos psíquicos. Muitas vezes, esses sofrimentos se manifestam de maneira sutil, através de comportamentos ou queixas, e podem ser difíceis de identificar. Pensando nisso, especialistas apontam os principais tipos de sofrimento emocional que atingem as crianças, além de orientações sobre como os adultos podem agir para apoiar os pequenos.
1. Medos de Animais, Insetos e Fantasmas
Aos três anos, é comum que as crianças comecem a apresentar medos de objetos ou seres, como animais, insetos e até fantasmas. Esses medos podem parecer irracionais para os adultos, mas são uma fase normal do desenvolvimento infantil. A psicanalista Adela Stoppel de Gueller explica que esses medos surgem quando a criança começa a perceber sua individualidade e a se separar dos pais. Entretanto, em alguns casos, os medos podem evoluir para fobias, limitando a criança em suas atividades diárias.
É importante que os pais não antecipem o medo, como evitar certos lugares para não assustar a criança, nem minimizem o sentimento dizendo que o medo não é real. Ao invés disso, é essencial que a criança tenha espaço para expressar suas preocupações, com o apoio de um profissional, caso o medo se torne paralisante.
2. Medo da Morte ou de Perder Pessoas Queridas
Embora a morte não seja um conceito fácil para crianças, muitos pequenos se sentem profundamente angustiados pela ideia de perder alguém querido. Psicólogos explicam que o medo da morte está frequentemente ligado ao desamparo, a sensação de estar sem um cuidador importante. A psicanalista Rosa Maria Marini sugere que os pais falem sobre a morte de forma honesta, mesmo que a conversa seja difícil. Encobrir o tema pode gerar ainda mais insegurança e angústia na criança.
Falar, desenhar e até brincar sobre a morte podem ser formas saudáveis para a criança processar e compreender a perda, facilitando o processo de luto.
3. Vergonha e Timidez Excessivas
É natural que as crianças se sintam tímidas ou envergonhadas em algumas situações, como ao falar em público ou ao se expor diante de estranhos. No entanto, quando esses sentimentos são excessivos, eles podem se transformar em bloqueios que dificultam o desenvolvimento social e emocional da criança. Essas inibições podem afetar sua capacidade de fazer amigos, participar de atividades escolares ou até mesmo interagir com outros membros da família.
Segundo a psicanalista Adela Stoppel de Gueller, quando a vergonha se torna um obstáculo significativo, o apoio profissional pode ser necessário. O acompanhamento de um psicólogo ou psicanalista pode ajudar a criança a lidar com a timidez e a se tornar mais confiante.
4. Bullying: Agressões Psicológicas e Físicas
O bullying é uma realidade cada vez mais presente na vida das crianças e pode gerar traumas emocionais profundos. Seja como vítima ou agressor, as crianças que enfrentam essa situação muitas vezes internalizam sentimentos de inferioridade e angústia. Segundo a psicanalista Rosa Maria Marini, o bullying não deve ser encarado como algo simples ou passageiro, mas como uma expressão de sofrimento e mal-estar, que exige intervenção.
É fundamental que os pais, a escola e os profissionais de saúde mental trabalhem juntos para lidar com essa questão. A conscientização dos envolvidos, especialmente no que diz respeito à empatia e respeito pelas diferenças, é crucial para interromper o ciclo de agressões.
5. Sentimento de Exclusão e Solidão
Muitas crianças podem relatar sentimentos de solidão ou de não se encaixarem em seu grupo social. Em alguns casos, essas emoções podem ser desencadeadas por situações familiares difíceis, como separação dos pais, ou pela falta de um espaço seguro para compartilhar suas angústias. O psicólogo Enrique Mandelbaum explica que as crianças, por vezes, não encontram apoio para lidar com suas inseguranças, o que pode levar a um sentimento de exclusão.
É importante que os pais e cuidadores busquem identificar sinais de solidão, proporcionando à criança a oportunidade de se expressar e buscar ajuda, seja em casa ou com o apoio de profissionais. Às vezes, o simples fato de ouvir a criança pode ser crucial para aliviar suas angústias.
Como Ajudar?
A primeira e mais importante atitude para os adultos é oferecer um ambiente acolhedor e aberto, onde a criança se sinta segura para expressar seus medos e preocupações. Caso os sintomas persistam ou se intensifiquem, buscar a ajuda de um psicólogo ou psicanalista especializado em crianças é essencial.
Além disso, os cuidadores devem estar atentos às mudanças de comportamento da criança, como o isolamento social, a recusa em participar de atividades ou a manifestação de medos incomuns. A intervenção precoce pode evitar que o sofrimento psíquico da infância evolua para problemas mais complexos na adolescência e na vida adulta.
Cuidar da saúde mental das crianças é uma tarefa delicada, mas fundamental para garantir o desenvolvimento emocional saudável e equilibrado. A compreensão e o apoio dos adultos podem ser decisivos para ajudar a criança a superar as dificuldades psíquicas e crescer de forma plena e feliz.
Foto: Getty Images via BBC















