A hipertensão arterial é uma das doenças crônicas mais comuns no Brasil e um dos principais fatores de risco para infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC). O tratamento geralmente é contínuo e envolve o uso de medicamentos por toda a vida. No entanto, muitos pacientes relatam que, após um certo período, os remédios parecem não controlar mais a pressão. Mas será que o corpo realmente se acostuma com eles?
De acordo com especialistas consultados, os medicamentos não perdem seu efeito químico com o tempo. O que ocorre, na verdade, são mudanças no organismo, no estilo de vida ou na adesão ao tratamento. O cardiologista Pedro Xavier Fontes, preceptor de cardiologia da Faculdade de Medicina de Piracicaba, destaca que o termo “tolerância verdadeira” é raro. Na maioria das vezes, o que se observa são comportamentos, interações medicamentosas e a progressão natural da doença.
O envelhecimento traz alterações significativas para o sistema cardiovascular, e as artérias tendem a se tornar mais rígidas, o que dificulta o controle da pressão, especialmente a sistólica. Além disso, pacientes que lidam com múltiplas doenças crônicas e fazem uso de diversos medicamentos (polifarmácia) estão mais propensos a interações que podem resultar em uma “pseudo falha” dos anti-hipertensivos. Portanto, a mudança no contexto do paciente é o que, muitas vezes, leva à impressão de que o medicamento perdeu efeito.
A variação na resposta ao tratamento também está relacionada ao tipo de medicação utilizada. Inibidores da ECA (IECA) e bloqueadores dos receptores de angiotensina (BRA) são considerados pilares do tratamento, mas seu efeito pode ser reduzido em pacientes que consomem muito sal ou utilizam anti-inflamatórios com frequência. Os bloqueadores de canal de cálcio, como o anlodipino, podem causar inchaço nas pernas em até um terço dos pacientes, o que pode reduzir a adesão ao tratamento. Betabloqueadores não são a primeira escolha isolada, sendo mais indicados em situações específicas, como pós-infarto ou arritmia.
Outro fator a ser considerado são as interações com medicamentos comuns. Anti-inflamatórios, por exemplo, podem aumentar a pressão arterial e antagonizar os efeitos de IECA, BRA e diuréticos. Descongestionantes nasais com pseudoefedrina também podem elevar a pressão, assim como corticoides e anticoncepcionais com estrogênio. Essas interações, muitas vezes desconhecidas pelos pacientes, ajudam a explicar por que a pressão pode “escapar” mesmo durante um tratamento contínuo.
Além disso, mais da metade dos pacientes não toma os remédios corretamente no primeiro ano de tratamento. Esquecer doses, ajustar a medicação por conta própria ou simplesmente abandoná-la são atitudes que comprometem o controle da pressão. Muitas vezes, os pacientes acreditam que, ao perceberem que sua pressão está boa, não precisam mais tomar a medicação, o que pode levar a um retorno do problema, uma vez que continuam a ser hipertensos.
Hábitos pouco saudáveis também podem interferir na eficácia do tratamento. Uma dieta rica em sódio pode neutralizar a ação do anti-hipertensivo, e o consumo de álcool pode alterar o metabolismo do medicamento. Pequenas mudanças, como separar as doses em caixinhas, usar combinações de comprimidos únicos, reduzir sal e álcool, revisar outros medicamentos em uso e investigar causas secundárias, como apneia do sono e hiperaldosteronismo, podem ajudar a manter o controle.
Os médicos ressaltam que, antes de trocar ou escalar a medicação, é fundamental confirmar se o paciente está tomando os remédios corretamente e se não há fatores externos elevando a pressão. Não adianta mudar a medicação se o problema for baixa adesão ou uso de anti-inflamatório. A hipertensão é uma doença silenciosa e perigosa, e o acompanhamento médico, assim como o monitoramento domiciliar, são essenciais para garantir que o controle da pressão arterial seja mantido a longo prazo.
Fonte: g1
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