Amor ou sobrevivência? O que a ciência diz sobre o macaco rejeitado que ‘adotou’ pelúcia

Por Dentro De Tudo:

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Sem mãe, macaco bebê ganha amigo de pelúcia e viraliza. A imagem do filhote Punch, um macaco-japonês rejeitado pela mãe em um zoológico de Ichikawa, no Japão, comoveu o mundo ao mostrar o filhote abraçado a uma pelúcia. Especialistas respondem até que ponto essa atitude se assemelha aos hábitos e instintos humanos. O caso revela a complexa engrenagem biológica e emocional que une os primatas e os desafios de interpretar a natureza sem o filtro da humanização.

Para além da cena que derrete corações nas redes sociais, o episódio evidencia a necessidade de entender os limites entre equiparações humanas e comportamentos animais, sobretudo quando a ausência de contato física é um traço recorrente na criação de filhotes rejeitados. O primeiro impulso de um primata ao nascer envolve agarrar-se, buscando a textura do pelo materno como forma de sobrevivência. Ainda assim, é preciso compreender as motivações e os desdobramentos desse sentimento.

O peso da rejeição

A rejeição materna, embora possa parecer cruel aos olhos humanos, tem raízes biológicas que a ciência tenta decifrar. Alcides Pissinatti, médico veterinário e chefe do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, explica que a rejeição tem várias causas: parto complicado, dor na fêmea e processos que levam à separação entre progenitora e cria. Fatores como doenças ocultas na mãe ou até a manipulação humana, que altera o odor do filhote, podem romper o vínculo entre mãe e cria.

Survivência em forma de abraço

Para um primata, o abraço não é apenas um gesto de carinho, mas um equipamento de segurança. Fabiano R. de Melo, professor do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa, aponta que o que chamamos de abraço é, tecnicamente, uma relação afiliativa que reforça os laços do grupo. Um filhote abraçado à mãe é sobrevivência: ele precisa estar agarrado ao corpo dela, senão cai, morre, é predado. Nesse cenário, a pelúcia oferecida a Punch funciona como um substituto neurológico: um objeto de pelúcia ajuda o cérebro do infante a compreender que está no corpo da mãe ou do pai, lembrando que em diversas espécies o cuidado parental é compartilhado.

A psique e o aprendizado

A ausência de contato físico e social precoce deixa marcas profundas. Sem esse contato, o isolamento pode resultar em animais mais agressivos ou com dificuldades severas de interação futura. Se o animal não tem esse contato, pode enfrentar dificuldades em demonstrar qualquer tipo de afeto, com implicações sérias na psiquê do indivíduo. Além do trauma emocional, há déficit educativo: sem os pais, o filhote perde as “aulas” de caça, alimentação e as regras de convivência do grupo, o que pode comprometer até a capacidade reprodutiva na fase adulta.

O perigo de humanizar

Embora a empatia humana auxilie na preservação, os especialistas alertam para a onda de humanização e a tendência de projetar sentimentos humanos em animais selvagens. Estamos humanizando tudo. Pessoas que vivem em cidades acabam criando situações fictícias de convívio com a fauna. A verdadeira educação ambiental passa por entender que a natureza tem regras próprias, muitas vezes distantes do nosso conceito de romantismo.

Diversidade e harmonia

A necessidade de contato varia entre as espécies. Enquanto os muriquís são famosos por abraços que ajudam a manter a paz no bando, outras espécies, como micos-leões, apresentam dinâmicas de cuidado específicas que a ciência ainda estuda para entender comportamentos pós-parto. No fim, seja pela catação (grooming) ou pelo simples calor de um corpo — ainda que de pelúcia —, o contato é o fio invisível que mantém a harmonia dos primatas. Para Punch, a pelúcia foi o primeiro passo para a segurança; o próximo, e mais importante, será aprender a ser macaco entre os seus iguais.

Crédito da foto: Divulgação / Zoo de Ichikawa. Fonte: Terra da Gente, g1.globo.com. Data de publicação: 26 de fevereiro de 2026.

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