Qual vai ser a primeira coisa que você vai fazer depois de tomar a vacina? Se já estava fazendo planos de abandonar a máscara imediatamente, viajar, ir para a balada e rever todo mundo que não conseguiu encontrar em quase um ano de pandemia, os médicos e infectologistas alertam: na verdade, a vida não vai voltar ao normal logo após tomar a vacina.
“Depois de tomar a vacina, é preciso voltar para casa, manter o isolamento social, aguardar a segunda dose e depois esperar pelo menos 15 dias para que a vacina atinja o nível de eficácia esperado”, explica a bióloga Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência. “E mesmo depois, é preciso esperar que boa parte da população já tenha sido imunizada para a vida voltar ao normal.”
Há motivos para isso. Entenda.
Tempo para o corpo reagir
Embora existam particularidades dependendo do tipo de vacina e do tipo de doença, o mecanismo geral de funcionamento de uma vacina é sempre o mesmo: ela introduz no corpo uma partícula — chamada antígeno — que produz uma resposta imunológica no corpo e faz com que ele esteja preparado para enfrentar uma tentativa de contaminação do corpo caso entre em contato com o vírus no futuro.
Esse antígeno pode ser um vírus desativado (morto), um vírus enfraquecido (incapaz de adoecer alguém), pode ser um pedaço do vírus, alguma proteína que se assemelhe ao vírus ou até mesmo um ácido nucléico (como a vacina da RNA).
O antígeno provoca uma resposta imunológica, ou seja, faz com que o corpo se torne capaz de reconhecer aquele vírus e produzir anticorpos para combatê-lo, explica o médico infectologista Jorge Kalil, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Dá próxima vez que entrar em contato com aquele vírus, o corpo já terá a memória de como combatê-lo e conseguirá enfrentar a ameaça de forma rápida e eficiente, impedindo que o vírus contamine o corpo.
Essa resposta é chamada de resposta imune adaptativa e ela é específica para cada vírus. “É uma resposta que demora um pouco mais, são pelo menos duas semanas até que o corpo
É por isso que após tomar uma vacina — quer seja a contra o coronavírus ou contra qualquer outra doença — você só está realmente protegido depois de algumas semanas, explicam os cientistas. É como se o corpo precisasse de um tempo para “processar” aquelas informações e reagir de forma adequada.
Em uma pessoa não vacinada, o Sars-Cov-2, vírus que causa a covid-19, entra nas células dos sistemas respiratórios e começa a usá-las para produzir mais vírus. É como se produzisse “células zumbi” que trabalham para ele.
A primeira resposta imunológica produzida pelo corpo depois da vacinação é a produção de anticorpos, que se ligam diretamente ao vírus e impedem que ele entre nas células do corpo e as utilize para produzir mais vírus, explica Pasternak.
Ou seja, em uma pessoa imunizada, o corpo já conhece o vírus por causa da vacina e a partir do momento em que o patógeno entra no corpo são liberados anticorpos que impedem a contaminação de células.
Mas existe um segundo tipo de resposta imunológica, chamada resposta celular. “São células — as chamadas células T — que não se ligam ao vírus, mas reconhecem quando uma célula está contaminada com o vírus e a destroem”, explica Pasternak.
Ou seja, se algum vírus conseguir escapar dos anticorpos e contaminar alguma célula do corpo, as células T funcionam como “caçadoras” e destroem essa “célula zumbi”, impedindo que mais vírus sejam produzidos.
A resposta celular demora um pouco mais que a resposta através de anticorpos — mais um motivo para que a imunização só esteja completa algumas semanas após tomar a vacina, explica Jorge Kalil.
“Depois de 15 dias, a gente já espera que haja uma resposta celular do sistema imunológico”, afirma Kalil.
Duas doses contra o coronavírus
Vacinação no Brasil deve começar no início do próximo ano. Além do tempo que o corpo precisa para desenvolver a resposta imunológica, no caso específico do coronavírus uma outra questão faz com que seja preciso manter as medidas de proteção por algum tempo após a vacinação: a maior parte das vacinas sendo desenvolvidas contra a doença exige duas doses para que atinja a eficácia esperada.
Vão ser necessárias duas doses nas quatro vacinas que já tiveram a eficácia comprovada: a da Pfizer, a da Moderna, a da Oxford/AstraZeneca e a Sputnik V. Isso vale também para a Coronavac, que está em desenvolvimento pelo o Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica Sinovac.
“No caso das vacinas que provavelmente teremos disponíveis contra o coronavírus no Brasil, a orientação vai ser tomar a primeira dose, esperar um mês, voltar para o postinho, tomar a segunda dose e manter todos os cuidados contra a pandemia, como isolamento social e uso de máscaras, por pelo menos 15 dias. Só então você estará protegido, de acordo com a eficácia de cada vacina”, explica Jorge Kalil.
Entre as 200 vacinas em desenvolvimento contra o coronavírus, existem algumas que seriam em dose única, mas elas não estão em estágios tão avançados de desenvolvimento quanto as que vão exigir duas doses.
Mas, mesmo depois disso, vai demorar para a vida voltar ao normal — e até que a maior parte da população esteja vacinada, a orientação é para que mesmo as pessoas vacinadas mantenhas as medidas.
A cientista explica: as vacinas testadas até agora impedem o vírus de se reproduzir no corpo e deixar a pessoa doente. Mas não há testes, por enquanto, que comprovem que essa pessoa não vá transmitir esse vírus — que no corpo dela está sendo combatido pelos anticorpos — para outras pessoas.
O resumo disso tudo é que, mesmo se você já tiver tomado as duas doses da vacina, aguardado mais 15 dias, é preciso aguardar até que a maior parte da população esteja vacinada para que a vida volte ao normal, aconselha Jorge Kalil. Isso tanto para se proteger, caso você esteja no pequeno grupo de pessoas para quem a vacina não terá efeito imunizante; quanto para proteger outras pessoas — até que a imunidade de rebanho gerada pela ampla cobertura vacinal seja capaz de conter a pandemia de vez.

















