Falta de medicamentos e impactos da Semana Santa podem adiar reabertura em BH

Por Dentro De Tudo:

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Mesmo com os índices de ocupação hospitalar que começam a dar sinais de trégua e a transmissão da Covid-19 em queda, os rumos das medidas de combate à pandemia na capital mineira ainda são incertos. Após uma reunião de quase quatro horas na sede da Prefeitura de Belo Horizonte, os membros do comitê de enfrentamento à doença ainda não decidiram se vai haver uma flexibilização das atividades econômicas na cidade.

Conforme o infectologista Estevão Urbano, que faz parte do grupo, um dos principais pontos que preocupa é a falta de medicamentos do kit intubação, como anestésicos, sedativos e relaxantes musculares usados nos leitos de UTI. “Não chegamos a uma conclusão do que fazer, se seguramos mais ou pouco ou começa a reabrir. Tem várias coisas em jogo”, declarou. O especialista lembra que os insumos estão escassos no mercado – a situação da capital só não é pior por conta de doações que a prefeitura recebeu de associações.

“Já está quase sem medicamento, e se abre e aumenta as internações de novo e o consumo, pode ser que a partir de determinado momento não tenha mais para sedar o indivíduo. Tem casos de locais que não tem sedativos e as pessoas ficam amarradas na cama, isso é indigno e preocupa. Esse cenário preocupa e não favorece uma decisão muito rápida”, declarou o médico.

Por conta da alta demanda e ocupação em níveis elevados desde o início de março, todo o estado enfrenta dificuldades de abastecimento de medicamentos usados nos leitos de UTI e enfermaria. Um levantamento da Federação das Santas Casas de Minas Gerais (Federassantas) revelou que o preço os insumos subiu quase 2.000%, na comparação com outubro do ano passado, e as dificuldades de encontrar os remédios no mercado são cada vez maiores.

Além de Urbano, participaram do encontro o secretário municipal de Saúde, Jackson Machado, o prefeito Alexandre Kalil (PSD) e os infectologistas Carlos Starling e Unaí Tupinambás. “Como não havia, entre todos os integrantes, uma opinião convicta de sim ou de não, temos que debater mais, esperar novos números amanhã, alguns movimentos da prefeitura tentando conseguir algumas medicações”, pontuou.

Em nota, o Executivo municipal informou que, apesar da melhora dos índices de monitoramento da doença na cidade, o comitê “avalia as perspectivas de suprimento de insumos e medicamentos destinados à rede hospitalar de Belo Horizonte para a tomada de decisões em relação à reabertura das atividades na cidade”. As discussões podem se estender até a próxima sexta-feira (14).

Efeitos da Semana Santa

Como aconteceu em outros feriados prolongados do ano, os impactos das viagens e eventuais aglomerações durante a Semana Santa ainda não foram sentidos na capital, o que trouxe mais um elemento para adiar a decisão. “Agora que estamos começando a sofrer o impacto, ainda estamos em dúvida se é o momento exato de correr risco de flexibilização ou se vale a pena observar mais dias”, explicou Urbano. 

E mesmo com a queda da taxa de transmissão da doença, que está em em 0,88 – abaixo de 1, significa regressão da pandemia –, ainda não há segurança se o índice permite uma reabertura dos serviços não essenciais na cidade. “São vários fatores que estão levando a gente a bater um martelo”, enfatizou. 

Onda Roxa em Minas

Com toda a região metropolitana na Onda Roxa do Minas Consciente, que é de adesão obrigatória, há quase um mês, o governador Romeu Zema (Novo) teria se encontrado com empresários e garantido que até o fim desta semana as cidades poderiam iniciar uma flexibilização, com medidas menos restritivas. Porém, o estado ainda não confirmou a decisão. 

Já o infectologista alegou que a capital mineira tem uma metodologia diferente para analisar os rumos das medidas restritivas. “Na questão de Belo Horizonte, a decisão não é casada com o estado, temos uma política própria de tratamento da pandemia. Não necessariamente a decisão do estado impacta na nossa”, adiantou.

Caso a região avance para a Onda Vermelha, que permite o funcionamento de atividades não essenciais com limite do uso da capacidade, a adoção da medida prevista no programa estadual é facultativa às prefeituras, ao contrário da fase roxa.

Entidades defendem o lockdown

Mais uma vez, o Conselho Municipal de Saúde criticou uma eventual flexibilização das atividades econômicas e pediu ainda mais rigor nas medidas. Para a entidade, a recomendação é que a cidade adote um lockdown de três semanas diante do aumento de casos confirmados e mortes provocadas pela Covid-19 – a média móvel de óbitos está em 43 confirmações diárias, um aumento de 73% na comparação com a última semana.

“Temos visto o aparecimento de novas cepas do coronavírus, mais agressivas, por causa da flexibilização, das aglomerações, de festas. Precisamos fazer o vírus parar de circular parando a circulação de pessoas”, alegou a presidente do conselho, Carla Anunciatta. Além disso, a entidade alegou que a ocupação atual das unidades de saúde sinaliza que a rede trabalha “com capacidade plena, considerando que os leitos vagos precisam ser higienizados e preparados para receber o próximo paciente”.

Mais de 500 professores da UFMG também encaminharam um abaixo-assinado ao prefeito Kalil para a adoção de um lockdown de 21 dias na cidade. Na justificativa, os especialistas lembraram do “aumento sem precedentes no número de casos e de mortes por Covid e ao colapso do sistema de saúde, falta de medicamentos, de leitos, de respiradores, de oxigênio e ao esgotamento da capacidade dos serviços funerários”.

Já a Secretaria Municipal de Saúde alegou que “avalia todas as recomendações recebidas e as orientações são consideradas nas tomadas de decisão”. Segundo a pasta, qualquer agravamento da situação que comprometa a capacidade de atendimento nos hospitais “será tratada da forma devida, com o objetivo de preservar vidas”.

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