O mercado brasileiro de ativos digitais entrou em uma nova etapa em 2026, com uma adoção cada vez mais transversal de bitcoin hoje real. Enquanto o uso de criptomoedas e stablecoins continua crescendo, autoridades e representantes do setor discutem como adaptar o ambiente regulatório a tecnologias que passaram a desempenhar funções cada vez mais próximas das utilizadas no sistema financeiro tradicional.
O debate ganhou força durante o Blockchain.RIO, realizado no Rio de Janeiro, onde João Paulo Borges, coordenador-geral do Ministério da Fazenda, defendeu a necessidade de construir regras específicas para stablecoins. Segundo o representante do governo, o desafio está em estabelecer mecanismos capazes de proteger usuários e garantir segurança jurídica sem limitar o desenvolvimento de novos modelos de negócio.
Stablecoins ganham espaço no mercado brasileiro
A importância desse debate pode ser observada nos próprios dados divulgados pelas autoridades. Em julho de 2026, o Ministério da Fazenda informou que as stablecoins já representavam cerca de 80% do volume declarado de operações com criptoativos no Brasil.
De acordo com os dados da Receita Federal apresentados pelo ministério, entre agosto de 2019 e dezembro de 2025 foram declarados aproximadamente R$ 1,58 trilhão em operações de compra e venda dos principais criptoativos. Desse total, cerca de R$ 1,13 trilhão, ou 71,7%, correspondia a stablecoins. Em 2025, a participação dessas moedas permaneceu acima de 80% do volume mensal.
Os números ajudam a explicar por que as stablecoins passaram a ocupar um espaço importante nas discussões sobre o futuro dos ativos digitais no país.
Regulamentação entra em nova fase
O debate acontece em paralelo à implementação de um novo quadro regulatório para ativos virtuais. O Banco Central passou a exercer a competência de regular, autorizar e supervisionar as prestadoras de serviços de ativos virtuais. A Resolução BCB nº 520, que entrou em vigor em 2 de fevereiro de 2026, estabelece regras para a constituição e funcionamento dessas empresas e inclui requisitos relacionados à proteção dos clientes, prevenção à lavagem de dinheiro, governança, segurança e prestação de informações.
A regulamentação não significa, porém, que todos os possíveis usos dos ativos digitais estejam completamente definidos. É justamente nesse espaço que surge a discussão sobre stablecoins.
Como esses ativos podem ser utilizados para diferentes finalidades, desde negociação e transferência de valor até pagamentos e operações internacionais, as autoridades precisam avaliar se as regras existentes são suficientes para cada modelo.
Stablecoins podem criar novos mercados
Uma das principais ideias apresentadas pelo Ministério da Fazenda é que stablecoins não devem necessariamente ser analisadas apenas como substitutas de instrumentos que já existem.
Durante o evento, João Paulo Borges comparou o potencial das stablecoins com a evolução do Pix. Segundo ele, quando o sistema de pagamentos instantâneos foi desenvolvido, existia a expectativa de que poderia substituir outros meios de pagamento. Na prática, o Pix ampliou as possibilidades disponíveis aos consumidores e criou novos serviços.
A mesma dinâmica poderia ocorrer com as stablecoins. Em vez de simplesmente substituir meios tradicionais de pagamento, esses ativos poderiam ser utilizados para desenvolver novos serviços financeiros, especialmente em operações internacionais.
Pagamentos internacionais estão entre os principais casos de uso
As transações internacionais aparecem como uma das áreas com potencial para expansão.
Stablecoins podem facilitar determinadas operações de transferência de valor entre diferentes países e moedas, criando alternativas para empresas e consumidores que participam da economia global.
O Ministério da Fazenda também apontou a possibilidade de stablecoins denominadas em reais ampliarem a exposição internacional à moeda brasileira. Um investidor estrangeiro poderia, por exemplo, utilizar uma stablecoin referenciada no real para obter exposição à moeda e às condições financeiras brasileiras.
Ainda assim, esses casos de uso estão em desenvolvimento e não devem ser tratados como uma realidade consolidada em todo o mercado.
Banco Central amplia as regras para ativos virtuais
A evolução regulatória também pode ser observada nas medidas adotadas pelo Banco Central durante 2026. Em junho, a Resolução BCB nº 573 incluiu informações relacionadas às atividades com ativos virtuais no conjunto de informações regulatórias exigidas pelo Banco Central.
No mesmo mês, a Resolução BCB nº 574 estabeleceu regras para a prestação de informações sobre operações com ativos virtuais no mercado de câmbio. A norma determina que instituições autorizadas a operar no mercado de câmbio deverão informar determinadas operações de prestação de serviços de ativos virtuais realizadas a partir de novembro de 2026.
Já em julho, a Resolução BCB nº 580 estabeleceu regras prudenciais específicas para sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais e conglomerados liderados por essas empresas.
Brasil procura definir o próximo passo
O cenário de 2026 mostra que o Brasil já não discute os ativos digitais apenas como uma tendência tecnológica. Com volumes expressivos declarados à Receita Federal e stablecoins representando aproximadamente 80% das operações em 2025, o tema passou a fazer parte das discussões sobre a própria evolução do sistema financeiro.
A próxima etapa será definir como esses ativos poderão crescer dentro de um ambiente regulado sem perder a capacidade de inovação. Para o Brasil, a discussão sobre stablecoins representa justamente esse desafio: construir regras suficientemente claras para proteger usuários e instituições, mas flexíveis o bastante para permitir que novos casos de uso sejam desenvolvidos.















