Canetas emagrecedoras e remédios caros devem elevar preços dos planos de saúde empresariais

Por Dentro De Tudo:

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A imprensa destaca a pressão que a demanda por terapias avançadas, incluindo medicamentos de alto custo, pode exercer sobre a inflação médica e os reajustes dos planos de saúde empresariais. A expectativa é de que os custos médicos aumentem entre 8% e 11% em 2026, conforme aponta a percepção de especialistas consultados pelo g1.

Segundo a Willis Towers Watson (WTW), os gastos com medicamentos figuram entre os principais impulsionadores dos custos de saúde nas Américas, com particular relevância dos fármacos modernos para obesidade e diabetes. Walderez Fogarolli, diretora de saúde e benefícios da WTW, explica que, embora os planos de saúde no Brasil ainda não cubram medicamentos para emagrecimento, como as canetas injetáveis, o rol de procedimentos ampliou a cobertura ambulatorial para alguns tratamentos oncológicos, além de remédios voltados a doenças raras e autoimunes.

Ao mesmo tempo, entidades de saúde no Brasil e no exterior discutem como lidar com a obesidade a longo prazo. No final do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou diretrizes sobre o uso de canetas emagrecedoras no combate à doença, classificando esses medicamentos como ferramenta potencialmente essencial para ajudar milhões a superar a obesidade e reduzir danos associadas. No Brasil, uma série de projetos de lei apresentados no Congresso no ano anterior passaram a tratar do uso de medicamentos contra a obesidade no Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse cenário, a avaliação do setor é de que, embora os planos ainda não sejam obrigados a cobrir as canetas emagrecedoras, a obesidade vem sendo cada vez mais reconhecida como doença crônica, o que pode influenciar decisões judiciais contra as operadoras, dependendo do caso.

Ainda de acordo com a pesquisa da WTW, 67% das seguradoras acreditam que medicamentos à base de GLP-1 vão elevar os custos médicos nos próximos três anos, o que também pode pressionar novos reajustes dos planos de saúde. Esses medicamentos atuam imitando o hormônio GLP-1, produzido pelo próprio corpo, que ajuda a controlar o apetite, aumenta a sensação de saciedade e regula a liberação de insulina.

Há outros fatores que pesam na inflação médica. Os especialistas ressaltam que, além dos medicamentos, regulatóriações, judicialização no Brasil, tecnologias mais caras — muitas dependentes do dólar —, o comportamento dos usuários, desperdícios e fraudes influenciam os custos da saúde. A judicialização envolve casos em que pacientes recorrem à Justiça para obrigar planos a cobrir tratamentos, exames ou medicamentos não autorizados.

Tomás Ishizuka, superintendente técnico e atuarial da Mercer Marsh Benefícios, aponta que a frequência de uso do plano e o custo médio dos atendimentos — chamados de severidade no jargão do setor — também afetam os reajustes. “Analisamos principalmente o custo médio por atendimento e a frequência de uso, mas o preço também depende de variáveis como a idade dos beneficiários, o setor da empresa e o tipo de contrato”, afirma. A Mercer Marsh estima inflação médica entre 8% e 9% em 2026, com reajustes dos planos empresariais variando entre 8% e 10%. A WTW projeta alta de 11% neste ano, sem detalhar os reajustes dos planos.

Apesar das perspectivas de alta para 2026, especialistas avaliam que a inflação médica deve desacelerar em relação ao ano anterior, reflexo de esforços das operadoras para conter fraudes e reduzir custos pós-pandemia. Dados do Relatório de Tendências Globais de Custos Médicos da Aon indicam alta de 9,7% nos custos médicos corporativos no Brasil, contra 12,9% projetados para 2025.

Marcelo Borges, diretor executivo da Mercer Marsh Benefícios, comenta que os esforços recentes concentraram-se em mudanças na coparticipação e maior controle sobre reembolsos e rede credenciada. O aumento da coparticipação ajudou a reduzir uso indevido dos planos, como idas frequentes ao pronto-socorro sem urgência, excesso de exames e repetição de consultas. Regras mais rígidas para reembolsos surgiram após identificação de fraudes, em que beneficiários buscavam ressarcimentos indevidos. “O processo não se tornou impeditivo, mas ficou mais rígido. Antes, o beneficiário apresentava a despesa e a prévia, e a seguradora já pagava. Hoje é preciso apresentar o comprovante, e o valor do reembolso segue tabelas definidas para cada procedimento”, afirma Borges.

Além disso, houve renegociação entre operadoras e hospitais da rede credenciada, com contratos revisados e medidas para conter custos, como pacotes fechados de procedimentos e regras mais claras para diárias hospitalares. Fabio Martinez, diretor de Health & Talent da Aon no Brasil, enfatiza que, mesmo com a desaceleração, ainda há o desafio de incentivar o uso mais eficiente dos planos, considerando a inclusão frequente de novas tecnologias e medicamentos no rol da ANS.

Crédito da foto: Reprodução/TV Globo. Fonte: g1. via g1 e publicação original em 5 de maio de 2026, às 10:01h.

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