A reportagem aborda a dificuldade da chamada terceira via de ganhar fôlego na disputa pela Presidência em 2026. A pesquisa Quaest divulgada na última quarta-feira (13) aponta que 32% dos eleitores brasileiros — aproximadamente um terço — se consideram independentes, nem lulistas, nem bolsonaristas, nem de esquerda nem de direita, um padrão que se repete nas leituras da consultoria. O levantamento também mostra Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) distanciados dos demais pré-candidatos e sugere que, até a semana anterior, havia fundamentos para crer que a eleição deste ano não reservaria espaço para nomes que tentem emergir como terceira via.
No cenário de primeiro turno, Lula lidera com 39% e Flávio Bolsonaro aparece com 33%, segundo a Quaest mais recente. Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) aparecem com 4% cada, e Renan Santos (Missão) com 2%. Segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest e coautor do livro Biografia do Abismo, a polarização consome 72% das intenções de voto no momento, fruto de uma divisão que tende a permanecer entre dois polos: um próximo do lulismo e do PT e outro do bolsonarismo.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam que, em disputas presidenciais anteriores, candidatos que se apresentaram como alternativa não conseguiram romper o padrão que separa a população entre duas candidaturas antagônicas. Em 2014, Marina Silva, à época no PSB e hoje na Rede, chegou perto de avançar ao segundo turno após assumir a candidatura no lugar de Eduardo Campos, mas ficou fora da decisão. A eleição foi decidida entre PT e PSDB, repetindo padrões de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010. Em 2018 e 2022, Ciro Gomes (então no PDT, hoje no PSDB) e Simone Tebet (ex-MDB, hoje no PSB) permaneceram distantes dos dois primeiros colocados.
Felipe Nunes comenta que, embora parte do eleitorado busque consistentemente um candidato fora da polarização, a falta de coordenação entre as lideranças confunde o eleitor, levando os partidos a lançarem vários nomes ao mesmo tempo. Em 2026, nomes como Caiado e Zema, que buscam ampliar projeção nacional, disputam o mesmo espaço de candidatura anti-Lula, em vez de se consolidarem como uma opção realmente independente e competitiva. As falas de Caiado e Zema demonstram nuances em seus discursos, inclusive após a revelação de que Flávio Bolsonaro solicitou dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Master, para financiar um filme sobre o pai, Jair Bolsonaro: Zema classificou a conduta como “imperdoável” e “um tapa na cara”, enquanto Caiado pediu explicações, ressaltando que o objetivo principal é manter a direita unida contra Lula.
O cientista político Murilo Mendes, da Universidade de Brasília (UnB), avalia que Caiado aposta em uma candidatura “antissistema moderada”, com discurso voltado a enfrentar o establishment, mas com currículo administrativo que possa dialogar com antipetistas e eleitores independentes. Já Zema assume uma postura de outsider, confrontando o sistema com maior radicalidade. Marina Silva também opina sobre o tema, destacando que a terceira via não significa necessariamente centro ideológico, mas sim uma alternativa factível aos campos hegemônicos da disputa. Ela reforça que suas candidaturas buscavam apresentar uma nova forma de pensar o desenvolvimento do país e que, em 2018, a polarização destruiu o avanço de um novo ciclo.
Questionada sobre ter sido representante da terceira via no passado, Marina afirma que o termo simplifica o debate e que suas candidaturas buscavam um modelo de desenvolvimento mais sustentável. Ela aponta que, apesar de ter conseguido avanços, a polarização de 2018 interrompeu o progresso. O histórico da terceira via é apresentado como um panorama das disputas entre 1989 e 2022, com Marina Silva em 2014 e Anthony Garotinho em 2002 como os melhores desempenhos fora dos dois grandes blocos, além dos impactos da ascensão de Jair Bolsonaro em 2018.
O empresário João Amoêdo, fundador do Novo, avalia que o espaço para candidaturas de centro encolheu nos últimos anos: “Está órfão. Não há interesse de nenhum partido em se colocar como diferente do bolsonarismo ou do lulismo, pois o objetivo é ampliar as bancadas federais e conseguir mais recursos públicos.” Amoêdo se afastou do Novo em 2022, após declarar apoio a Lula, movimento que classificou como necessário diante do que considerou risco à democracia.
Questões sobre as dificuldades da terceira via são debatidas entre especialistas, que apontam que o desempenho inferior aos dois primeiros colocados indica baixa probabilidade de vitória para a candidatura que represente esse espaço. Pesquisas qualitativas indicam descrença no sistema político e apatia entre eleitores, com demanda por um outsider que esteja fora da polarização tradicional. O desempenho limitado é visto como reflexo da luta entre dois campos ideológicos bem definidos, reforçando a dificuldade de surgimento de alternativas relevantes ao longo dos anos.
Fonte: g1.globo.com, May 16, 2026. Crédito da foto: Reprodução / g1. Foto publicada com crédito no final da matéria. Fonte final: g1.globo.com.


















