Jornalistas da Folha de S. Paulo se reuniram e assinaram uma carta aberta ao jornal, se posicionando contra uma “publicação recorrente de conteúdos racistas”. O protesto veio após um artigo de opinião sugerindo a existência de “racismo reverso” ser publicado na Folha.
No artigo “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo”, Antonio Risério escreveu que “esquerda e movimento negro reproduzem projeto supremacista” e que “não devemos fazer vistas grossas ao racismo negro”.
A carta aberta, endereçada à Secretaria de Redação e ao Conselho Editorial da Folha, foi assinada por 186 jornalistas, sendo que 164 assinaram nominalmente. Leia a íntegra do documento aqui.
“Para além de reafirmarmos a obviedade de que racismo reverso não existe, não pretendemos aqui rebater o que afirma o autor — pessoas mais qualificadas do que nós no tema já o fizeram, dentro e fora do jornal”, diz trecho do documento.
Repetição
Na carta aberta, os jornalistas manifestam descontentamento ao afirmar que um padrão de repercussão de materiais racistas vem se repetindo nos últimos meses na Folha de S. Paulo.
“Em mais de uma ocasião recente, a Folha publicou artigos de opinião ou colunas que, amparados em falácias e distorções, negam ou relativizam o caráter estrutural do racismo na sociedade brasileira”, denunciam.
“Esses textos incendeiam de imediato as redes sociais, entrando para a lista de mais lidos no site. A seguir, réplicas e tréplicas surgem, multiplicando a audiência. A controvérsia então se estanca e morre, até que um novo episódio semelhante surja”, aponta o texto.
Os jornalistas defendem que, ao atrair audiência em curto prazo, artigos como o de Risério prejudicam a credibilidade da Folha. No final, a carta aberta convida a direção a uma reflexão e uma reavaliação sobre a forma como o racismo tem sido abordado no jornal.
‘Racismo reverso’ não existe
O artigo de opinião de Antonio Risério, publicado nesse sábado (15) na Folha, provocou revolta nas redes sociais ao sugerir que pessoas negras estão usando pautas identitárias para praticar racismo contra pessoas brancas.
Vale ressaltar que o racismo reverso é um termo que não existe. Segundo o site Alma Preta, “o racismo é fruto de um mito criado sobre a cor de pele negra na qual o fenótipo (conjunto de características físicas de uma pessoa) são os escolhidos para terem criado um ódio e características negativas à pessoas com concentração alta de melanina”.
“Ao contrário do racismo, como já vimos que é um fenômeno antinegro, o preconceito pode ter muitas vertentes, entre elas a própria questão racial, mas não só ela. Pode-se ter preconceito pela roupa de uma pessoa, o cabelo, o local onde mora, a orientação sexual, enfim uma quantidade infinita de tipos preconceitos”, explica o site.
“Por isso, quando uma pessoa branca sofre algum tipo de agressão verbal relacionada à sua cor, ela não pode dizer que sofreu racismo reverso, porque o racismo é única e exclusivamente direcionado a pessoa negra. A pessoa branca nesse caso sofreu um preconceito, uma discriminação ou uma injúria racial que esta relacionada á ofensas contra a honra da vítima, independente de seu fenótipo. Racismo é um crime histórico que foi criado pelo ódio à etnia negra e que matou e continua a matar milhares de pessoas negras em todo o mundo”, completa.
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